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São José do Rio Preto, 28 de Março, 2010 - 3:00
Nova geração de videogames favorece a interação entre pais e filhos

Francine Moreno

Orlandeli / Editoria de arte
A imagem do jogador de videogame como um adolescente solitário, obsessivo e introvertido está ultrapassada. Os perfis, agora, são compostos por famílias inteiras ou grupos de amigos. Seu comportamento é similar no interesse: o interesse puro e simples pela interação com outros jogadores. “Jogar sozinho é muito chato. É mais divertido com amigos ou meus pais do que com gente desconhecida”, afirma o pequeno Caio Hara Guenomoto Tamarine, 9 anos, que disputa os controles com os pais Flávio e Regina. Esses novos “gamemaníacos” também não demonstram predileção por temas violentos e sim por jogos de estratégia, sociais e musicais.

A mudança ocorreu em 2006 com o lançamento do Nintendo Wii, do Playstation 3 e a consolidação do Xbox 360. Os três consoles são verdadeiras estações de entretenimento para se ter na sala de casa. Além dos games, eles dão a opção de se assistir a filmes (em Blu-ray, no caso do PS3), programas de TV, comunicar-se com amigos pela internet ou baixar games direto para os consoles. Embarcados nesta tendência gregária de diversão, esses aparelhos ainda vêm de fábrica com opção para até quatro jogadores simultâneos.

Embora não considerem uma boa ideia deixar crianças e adolescentes por muitas horas jogando, os psicólogos são unânimes em afirmar que é positivo esse momento lúdico entre membros da mesma família, além de servir como uma ponte para o diálogo entre pais e filhos. “Melhora a comunicação entre os integrantes da família, fortalece afetos e amplia o processo de troca afetiva e convivência”, afirma o psicólogo Nelson Iguimar Valério, coordenador do curso de Intervenção Familiar da Famerp. Para o especialista, os laços familiares se tornam mais consistentes, favoráveis, protetores e preventivos para problemas de desvios de comportamentos, principalmente dos adolescentes. “Os valores, crenças e costumes familiares são transferidos durante a execução deste elemento intermediário (o jogo)”, revela.

Há ainda outro impacto positivo do ponto de vista comportamental: a partir da percepção de que perder ou ganhar faz parte da vida, o jogo pode colocar crianças e adolescentes face a face com sentimentos que vão da frustração à satisfação. “O jogo é um treino para a realidade, onde a criança aprenderá se dar conta da sua existência”, afirma o psicólogo Estevan Matheus, especialista em psicoterapia de pré-adolescentes.

Esse aprendizado por meio de uma ferramenta improvável - o videogame - é importante especialmente no começo da adolescência, quando o interesse e a aceitação em grupos coloca o jovem diante de situações de escolhas e perdas que “dão o contorno para entrada na vida adulta”, revela Matheus. Brigar durante o jogo é até normal se tudo puder terminar em sorrisos e abraços no final. E é neste ponto que os pais de hoje - que já pertencem à “geração Atari” - devem agir, dando o exemplo de manter a calma.

“Estes momentos são excelentes laboratórios para a aprendizagem de autocontrole e convivência dos diferentes tipos de emoções, sentimentos e afetos”, defende Valério. É ainda uma momento de atualização desses pais. “Os adultos também descobrem aspectos técnicos da logística atual destes instrumentos, atualizam repertórios e se sentem mais à vontade para falar com este público jovem.”

Thomaz Vita Neto
Uma vez por mês, Alex Santos reúne os amigos para ‘duelos’ musicais em casa
Unidos pela música

O fenômeno dos jogos musicais como “Guitar Hero” e “Rock Band” conquistou os adultos. Versões (bem) melhoradas do antigo videokê, eles se tornaram febre ao dar a qualquer pessoa, com ou sem noção de música, a oportunidade de subir ao palco com sua banda preferida. O Nintendo Wii, que trouxe como inovação o controle sem fio com sensor de movimentos, também é destaque entre os pais. O cineasta Steven Spielberg, por exemplo, criou os games “Boom Blox” e “Boom Blox Bash Party” para o Wii para manter sua família feliz. Spielberg tem sete filhos e é grande fã do console Wii e seus controles dotados de sensores, responsáveis por intensa interatividade física.

Para Nelson Valério, o cineasta é exemplo de pai que mudou de acordo o comportamento funcional e estilo de vida das famílias contemporâneas, em especial aquelas tidas de camadas sócioeconômicas mais favorecidas, que possuem uma série de obrigações no cotidiano, principalmente de média e grande cidades. “Os pais passaram a procurar uma reaproximação com os filhos a partir daquilo que os filhos fazem. É uma maneira de saberem o que eles estão fazendo, ao mesmo tempo em que estabelecem um contato que estava sendo perdido.”

Pais devem manter o controle

Brincar é sempre saudável para a vida de uma criança, mas o excesso de videogame, por exemplo, pode fazer muito mal. Crianças que passam tempo demais na frente de uma tevê ou computador estão mais propensas, no futuro, a desenvolver questões como obesidade, fumo, uso de drogas e álcool, déficit de atenção e hiperatividade, além de apresentarem baixo rendimento escolar.

Para os especialistas, duas horas em média por dia já representam um número excessivo. E a brincadeira também deixa ser saudável. Segundo a psicóloga infantil e de adolescentes Maria Teresa Chueire, é quando o filho pode passar a desrespeitar os pais, irmãos e amigos, partindo para discussões.

No entanto, apesar de permanecerem mais evidências do potencial prejuízo em relação à quantidade de horas jogadas, é preciso estar atento também ao conteúdo que as crianças acabam tendo acesso. Elas são como esponjas e absorvem tudo o que assistem ou jogam. Por isso, jogar junto, estar presente, é fundamental. É importante explicar aos filhos o que é positivo e negativo nos jogos. “Certos games podem instigar comportamentos violentos e de competição destrutiva, como o ganhar sempre”, afirma o psicólogo Nelson Iguimar Valério, coordenador do curso de Intervenção Familiar da Famerp.

O videogame não pode ocupar o tempo de brincadeiras no parque, na quadra, no campo ou passeios, que contribui efetivamente para que façam mais atividades físicas e, consequentemente, tenham menos riscos de ficar obesas. Em relação aos jogos de luta, é preciso verificar a classificação indicativa. Caso seja permitido, a ação pode funcionar como uma válvula de escape para a criança. Esse tipo de jogo segue o mesmo raciocínio das brincadeiras de mocinho e bandido.

Ampliar o leque

Uma saída para o equilíbrio é oferecer mais opções de lazer aos filhos. Além de jogar videogame, eles devem ter outras atividades como formas de diversão, a exemplo da prática de esportes. Além disso, o game não pode atrapalhar a hora das refeições, da lição de casa ou do banho. “Como parte da educação, os limites dão a direção para a criança e o adolescente entenderem o mundo que os cerca. A brincadeira se torna negativa quando não existem limites, deixando a criança exposta apenas ao prazer do jogo. O excesso é comparado a um adulto que não sabe a hora de parar de beber. Danos comportamentais e de interação com a sociedade podem surgir”, afirma o psicólogo Estevan Matheus, especialista em psicoterapia de pré-adolescentes.

Guilherme Baffi
Normando e Simone Farinazzo ao lado da filha Naomi: disputas saudáveis
Videogames miram interatividade familiar

A nova safra de jogos proporciona interação entre os competidores e gera um clima diferente de quando se joga sozinho, contra um computador ou mesmo contra um adversário na internet. Os dados estão aí para provar que nunca se jogou tanto e que a demografia nunca foi tão diversa em termos de idade e sexo. A visão que os pais tinham do formato dos games também foi transformada. Flávio e Regina Henomoto Tabarine, por exemplo, passam algumas horas durante a semana em frente à televisão jogando os games “Mario Kart”, “Super Mario Bros” e “Wii Sports” com o filho Caio, de 9 anos.

Para Flávio Tabarine, as crianças de hoje não conhecem o mundo sem tecnologia. Portanto, não seria possível privá-las do videogame. “Procuro regular o tempo da brincadeira e fazemos isso juntos. Além disso, essa fase tem de ser bem aproveitada e curtida porque logo eles crescem e os interesses mudam”, afirma. E Caio adora a companhia da família. “Ganhei o videogame dos meus pais no Natal e todos os finais de semana nos reunimos para se divertir e passar o tempo. Eu gosto muito”, diz.

Normando e Simone Farinazzo também integram a nova estatística de pais que encaram o videogame como um instrumento para ser compartilhado com os filhos. “Participamos ativamente do desenvolvimento da nossa filha. Primeiro assistíamos aos filmes de animação, depois os clipes e jogos no computador, agora ingressamos nesta disputa saudável dos games. É diversão garantida em família”, afirma Simone. A filha Naomi, de 15 anos, confirma. “Esquecemos da correria do cotidiano e o momento em que estamos jogando é gratificante e prazeroso.”

Acompanhando a evolução dos equipamentos, o web designer Alex Silva Santos, de 22 anos, comprou um Nintendo Wii no início de 2008 e de lá para cá não parou mais de jogar. Ele - que já teve Super Nintendo, Nintendo 64 e Playstation 2 - e um grupo de amigos se reúnem uma vez por mês para um campeonato que dura o dia todo. “Conheci essas pessoas durante um evento de games e desde lá nos reunimos mensalmente. É um lazer, mas ao mesmo tempo, exercitamos o raciocínio lógico, estratégia e eliminamos o estresse”, diz.

Guilherme Baffi
Caio, 9 anos, Regina e Flavio Tabarine: diversão em família aos finais de semana
Nova geração de aparelhos

Segundo o especialista em jogos eletrônicos Marcelo Tavares, maior colecionador de plataformas para jogos do País, pessoas como as entrevistadas para esta reportagem integram um grupo de jogadores que não são fanáticos, desejam apenas diversão por meio de games casuais, que favorecem as reuniões. Tavares destaca o papel do Nintendo Wii, que trouxe os controles com sensores de movimento para o mundo dos games e acabou de vez com o sedentarismo. “Agora, para se divertir, a família ou grupo de amigos se movimenta na frente do videogame. Ninguém fica parado”.

A nova onda só tende a crescer. Pegando carona no sucesso do Wii, a Sony lançou o Playstation Move, controle com sensor de movimentos mais completo que o do Wii. O Move é usado em conjunto com a câmera Eye e traduz os movimentos dos jogadores em ações nos jogos. O novo aparelho, que se parece com um controle de televisão com uma bola colorida em um dos extremos, estará disponível como parte de um pacote no final deste ano, a preço inferior a US$ 100. A Microsoft também lança a tempo para a temporada de festas de fim de ano o Projeto Natal, um sistema de videogames sensível a movimentos do usuário. “A tecnologia é ainda maior, os controles desaparecem e o console passa a reconhecer os movimentos do jogador na frente da tela”, afirma Tavares.

Divulgação
‘Super Mario Bros 3’, da NIntendo, está entre os jogos que fizeram história no mundo dos videogames
Games: dos clássicos aos ultramodernos

Estabelecer um ranking com os melhores games de todos os tempos é uma tarefa difícil. É necessário analisar, dentre outros quesitos, o design gráfico, roteiro, estilo, separação por consoles, categorias e ano de lançamento, já que os recursos disponíveis hoje são incompatíveis com aqueles da década de 1980. Mas de uma maneira sensata, o especialista em jogos eletrônicos Marcelo Tavares, maior colecionador de plataformas para jogos do Brasil, com mais de 200 aparelhos de videogame em seu acervo e cerca de três mil jogos, afirma que é possível sim destacar os melhores.

Segundo ele, Super Mario Bros 3 (remake de clássico dos games de plataforma), Wii Sports (coletânea de modalidades esportivas), Street Fighter II (um dos maiores clássicos de luta em uma versão flash), Pac Man (vulgo “come-come”) e The Sims (famoso simulador de vida) estão os melhores e mais populares games das últimas décadas.

Deixando a seara dos “clássicos”, Tavares faz um top 5 com os melhores games da nova safra. São eles; “Gears Of War 2” (sangrenta batalha liderada por Marcus Fenix entre humanos e a raça alienígena Locust), “Beatles Rock Band” (jogo dedicado a banda formada em Liverpool), “Fifa 10” (jogo de futebol da série Fifa), “Wii Fit Plus” (que traz o exercício físico para nossa sala de estar), e “Call of Duty: Modern Warfare 2” (jogo de tiro em primeira pessoa desenvolvido pela Infinity).

No entanto, os campeões de público, segundo Tavares, ainda sõa “Mario Kart Wii” (jogo de corrida), “Pro Evolution Soccer” (série de games de futebol), “God of War” (títulos de ação em terceira pessoa), “World of Warcraft” (jogo online com incontáveis missões), “Battlefield Bad Company 2” (outro jogo de missão), “Street Fighter IV” (mais nova versão do jogo de luta) e “Halo 3” (game de tiro em primeira pessoa).

Os extremamente populares são os jogos musicais como “Rock Band” e “Guitar Hero”. “Há sempre aquele desafio de conseguir uma boa pontuação para poder tocar uma música diferente e aquela competição interna para ver quem acerta o maior número de notas no game. Mas o que faz a direrença desses jogos é que todo mundo gosta de ouvir uma boa música e, no caso deles, geralmente as escolhidas são os clássicos”, afirma Marcelo.

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