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Mães de amanhã
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São José do Rio Preto, 10 de Fevereiro, 2010 - 1:30
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Nova geração de mães é a revolução na educação dos filhos
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Lézio Júnior / Editoria de arte
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Aos 28 anos, Ana Carolina Ribeiro já concluiu seu bacharelado em odontologia pela Unesp de Araçatuba, fez mestrado na mesma faculdade em estomatologia e está cursando doutorado, também em estomatologia, na Unicamp de Piracicaba. Ela esteve em 2009 na Guatemala e na Inglaterra fazendo pesquisas para ampliar sua tese. “Não penso em parar. Defendo meu doutorado em fevereiro de 2011 e depois vou continuar estudando e ingressar na carreira acadêmica”, diz. Ao contrário de sua mãe, que se casou aos 18 anos e teve filhos com 19, Ana Carolina não pensa nisso agora. “Quero ser mãe, mas filhos só daqui a uns 4, 5anos”, garante.
Casos como o de Ana são cada dia mais comuns. Desde que um grupo de mulheres resolveu décadas atrás queimar lingerie em praça pública para conseguir direitos iguais aos dos homens, o mundo se transformou. Hoje, o sexo frágil é relativo. As mulheres estão determinadas, correm em busca de seus objetivos e se tornaram exemplo, provando que vale a pena lutar pelo seu espaço na sociedade. Para especialistas em educação, há algo de novo e esperançoso na educação brasileira e diz respeito diretamente às mulheres. Acredita-se que uma revolução na qualidade da aprendizagem das crianças está prevista para os próximos anos e as mães serão o motor dessa mudança.
Esta nova geração de mulheres cada vez mais escolarizadas está caminhando para a maternidade e isso provavelmente causará um impacto direto e acentuado na educação das futuras crianças do País. “Essas mães vão querer mais da escola, vão cobrar mais e com certeza irão conseguir muito mais para seus filhos”, diz Maria Helena Guimarães Castro, ex-secretária da Educação de São Paulo.
Segundo Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), realizada anualmente pelo IBGE, a taxa de mulheres entre os 20 e 24 anos cresceu 39,43% desde 1995. Ou seja, essas mulheres já completaram 10 anos de estudos, mais do que qualquer outro grupo etário pesquisado. Isso é um feito inédito considerando a história recente do Brasil e as enormes diferenças sociais do País. Os homens da mesma faixa etária tiveram um ganho no mesmo período, mas só possuem 9,06 anos de estudos.
Por que a educação materna é tão importante para a vida escolar dos filhos? Pesquisas feitas desde 1980 pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp mostram que a escolaridade das mulheres faz muita diferença para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. Para a administradora de empresas Beatriz Mattos Martins, 26 anos, que hoje cursa MBA em Negociações Internacionais, em Londres, a chance de estudar fora e amadurecer fez com que ela percebesse que assim que for mãe vai querer dar isso e muito mais para seus filhos. “Até o momento, meus pais me ajudam e me incentivam a investir em mim e nos meus estudos. O meu foco ainda nos próximos 4 anos será a minha profissão. Essa experiência que eu adquiri por estar longe de casa eu quero que meus filhos vivam mais cedo. É incrível o quanto amadurecemos e nos tornamos pessoas melhores. Uma criança que tem um espelho desse de vida em casa, com certeza, aprenderá mais”, enfatiza.
Sem dúvida os homens são importantes na educação dos filhos, mas o papel da mulher é definitivo. “As mães são a figura adulta de referência preferencial dos filhos. Além disso, quanto mais descem nas escalas socioeconômicas, mais ausentes são os pais. Quanto à participação no acompanhamento escolar e de estudos dos filhos, as mães mostram-se incomparavelmente mais presentes”, relata o sociólogo Márcio da Costa, do Rio de Janeiro.
O Instituto Paulo Monteiro revela que 23% dos brasileiros adultos creditam à mãe o estímulo ao gosto pela leitura. Apenas 2,3% apontam o pai como a maior influência. “Eu penso que não devemos depositar total responsabilidade nas escolas. Os pais devem ficar atentos à educação que estão passando para seus filhos e o que eles estão aprendendo fora de casa. É obrigação dos pais cobrar, ajudar, incentivar e estar sempre ao lado dos filhos. Só assim, tendo pais que ensinam e com consciência de que exercem um papel fundamental na vida dos filhos é que talvez os problemas que o País enfrenta sejam solucionados”, acredita Érika Ribeiro e Silva, 25 anos, formada em física biológica pela Unesp de Rio Preto e que está cursando mestrado em física aplicada à medicina e biologia pela USP de Ribeirão Preto.
Mães com mais tempo de escola ampliam seu universo de referências, têm vocabulário mais amplo e domínio da norma culta, usam frases mais complexas e isso faz com que seus filhos cheguem à escola mais preparados para a fase crucial e decisiva de sua vida: a alfabetização. “A criança verá sua mãe valorizando o conhecimento, consultando livros, e dessa forma, terá exemplo dentro de casa de que a educação faz diferença na vida de todo indivíduo, e na fase de alfabetização, terá grandes chances de se tornar uma leitora competente, o que ajuda e muito em todas as áreas da vida escolar”, ressalta Maria Helena Guimarães.
Se o País continuar caminhando assim será possível mudar os baixos índices de hoje. Apenas 28% das crianças da 4ª série do ensino fundamental atingem o objetivo pedagógico de sua etapa escolar. Quando chegam à 8ª série, quase 40% dos alunos estão acima da idade adequada, ou seja, sofrem com o atraso escolar. “Por causa dessa realidade é que ainda não passa pela minha cabeça ser mãe. Tenho 4 anos de casada, mas acredito que a educação de uma criança depende única e exclusivamente de sua criação. Com a vida corrida e tumultuada que levamos hoje em dia, ter filhos e deixar que as babás e as escolas os eduquem não dá. Quero proporcionar ao meu filho pelo menos o que meus pais me proporcionaram. Com 16 anos fui morar nos EUA, voltei ao Brasil e fiz faculdade de direito em Rio Preto e fui para São Paulo estudar para concursos e fazer minha pós. Se não tivermos um esteio bom, como meus pais foram para mim, fica inviável pensar em colocar mais uma criança no mundo”, diz Jociani Schiavetto Pinoti, 31 anos, advogada.
Um levantamento recente realizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) indicou um crescimento de 12,52% no número de mulheres que obtiveram títulos de mestrado e doutorado entre os anos de 2003 e 2007, o que significou 20,4 mil novas mestres e doutoras em diversas áreas do conhecimento. “Não sou daquelas pessoas que acreditam que possam mudar o mundo. Mas tudo que fiz até hoje e que pretendo continuar fazendo será para poder crescer na minha vida profissional ou pessoal. É por isso que eu espero que a educação futura melhore, afinal, não é isso que a gente sempre quer, que nossos filhos tenham uma educação melhor do que a que tivemos? Então é o que eu também espero para daqui a 10 anos, quando eu resolver ser mãe”, diz a engenheira civil Maria Carolina de Paula Estevem D’Oliveira, 30 anos, que concluiu seu MBA em gerenciamento de projetos pela FGV e pretende até o meio de 2010 ir para os EUA para finalizar o MBA Internacional.
Embora todo o conhecimento dessas mães acrescente muito na educação de seus filhos, nem o mais otimista dos pesquisados considera que isso, por si só, seja o remédio para a educação. Ainda é preciso mais. O País precisa começar a investir e muito em seus professores e na infraestrutura das escolas para só assim, quem sabe, dar a todos os brasileiros uma educação digna.
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