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Relacionamento
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São José do Rio Preto, 30 de Janeiro, 2010 - 1:25
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Químicas do amor
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Lézio Júnior/ Editoria de Arte
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As relações humanas andam bem distantes do que eram antes. Já não são mais tão lineares como há cinco ou seis décadas. E tamanha diferenciação do modelo convencional não passa despercebido. O fato é que nos últimos tempos as pessoas têm se mantido distantes de casamentos tradicionais, muitas até ficam juntas enquanto sentem desejo sexual, mas é comum encontrar quem já se relacione apenas durante os encontros sexuais. Mas é verdade também que muitas se bastam, sem que haja sequer a necessidade do sexo. “Algumas pessoas sentem-se atraídas quimicamente e isso basta para que a relação flua. Já outras não precisam do sexo na relação, basta o afeto para que fiquem juntas pelo resto da vida”, diz a psicóloga Maria Virginia Filomena Cremasco, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná.
Nesses casos, o amor é tão sublime que alimenta toda e qualquer necessidade da carne. Embora mais comum entre os idosos, alguns jovens também já se dizem apaixonados atualmente por pessoas independentemente do sexo. Alguns pesquisadores do comportamento chegam a afirmar que eles expressam um sentimento tão próximo da sublimação que nem sentem desejo de sexo. Isso talvez se explique pelo encontro de almas que, ao que tudo indica, pode ser suficiente para complementar a vida por toda a existência.
A obra recém publicada pela editora Prumo, intitulada “Alma Gêmea”, de autoria da norte-americana Arielle Ford, dá a entender que pessoas que assumem o controle de seus destinos amorosos determinam como passar o resto da vida ao lado de alguém sem que nada ou ninguém interfira. A autora observa que tudo é uma questão de maturidade e, para reforçar, ela recorre a uma frase de Erich Fromm, em que ele afirma que no amor imaturo um diz ao outro: “Eu te amo porque preciso de ti.” Enquanto no amor maduro eles dizem: “Eu preciso de ti porque te amo.”
Pode não ser tão simples assim, mas a autora afirma que para encontrar a alma gêmea, às vezes, basta fazer uma “Lista da Alma Gêmea”, na qual se vai elencar todas as qualidades e características que se deseja encontrar na pessoa amada. “Esta prática é uma forma de enunciar todos os desejos e aumentar a ligação magnética entre você e sua alma gêmea, levando-o, em alguns casos, à compreensão de que ela pode estar mais perto do que você imagina”, afirma.
No entanto, há quem não se importe - enquanto a alma gêmea não aparece - em buscar uma relação de prazer apenas. É o que faz a empresária M.A.C., 38 anos, que não pensa duas vezes em manter uma lista, mas com alguns nomes de parceiros sexuais, que em algum momento lhe despertaram o “instinto sexual”, e não perde um só minuto antes de investir em obter satisfação sexual com quem, segundo ela, tenha “pegada única”.
Para o psicanalista Miguel Yalente Perosa, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a química entre duas pessoas tem sido explicada de diferentes maneiras ao longo do tempo. “Tradicionalmente é dito que a química entre duas pessoas de sexos diferentes é uma expressão do instinto de sobrevivência da espécie. Mais modernamente existem estudos químicos falando de uma afinação de ferormônios. Mas acho muito difícil explicar essa química. A Psicologia fala de identificações com as figuras do sexo oposto que foram significativas na vida da pessoa.”
Química é despertada pelo desejo, diz psicóloga
Segundo a psicóloga Maria Virgínia, para uma pessoa sentir tanta química pela outra é preciso de que o desejo, que tem a ver com fantasia, tenha todos os elementos (script, com protagonistas, cenário, cenas, etc). Tudo isso leva à excitação. “Nós nos excitamos sobretudo porque encontramos na realidade (na outra pessoa por exemplo) os elementos de nossa fantasia de gozo absoluto. Esse, contudo, sempre é fantasioso, nunca o alcançamos, mas quando encontramos no real algo que dele se aproxima, nos excitamo. Por isso cada um se excita com aquilo que muitas vezes para o outro não tem muito sentido”, diz.
Viver relações superficiais, sem conteúdo emocional, em geral, pode resultar em angústia. “Uma descarga sem representação, sem se ligar a algum sentido, causa angústia porque o psiquismo não se apropria do sentido do que foi feito (por isso, quanto mais liberdade sexual sem afetividade, mais angústia)”, garante a psicóloga.
Por mais que um relacionamento seja baseado no sexo, haverá algo em comum entre o casal. “A questão é o quanto isso pode ser angustiante. Em geral, o homem lida melhor com a disjunção entre amor e sexo pela questão materna de dessexualizar a mulher que ama, mas não quer dizer que também não se angustie”, explica.
Buscar ajuda para se vincular de alguma forma pode ser a saída para quem não consegue se manter em contato o suficiente para saber se o amor é suficiente para sustentar a união, porque todo envolvimento evoca medo, dor, alegria e prazer. “Daí a questão da sexualidade no casal expressa como ambos lidam com a fantasia de completude, de gozo absoluto, de felicidade plena”, esclarece.
Nem tudo estará perdido se as pessoas puderem tolerar um pouco de negatividade na relação. “Se nem tudo for segundo o ideal de cada um (a perfeição que cada um espera) e ainda assim puder continuar existindo como relação, um não precisará do outro para se complementar (mesmo porque isso não existe na realidade)”, diz.
Vírginia observa ainda que o amor e o sexo devem ser suplementos para a vida de cada pessoa. “Afinal, é o que nos acrescenta e nos proporciona uma vida melhor com o outro e não o que vem preencher o que nos falta”, finaliza.
Afeto prevalece com o tempo
Escolher não ter um relacionamento convencional, ou seja, manter tudo no campo da química, pode ser apenas uma fuga, adotada em geral por pessoas que acreditam estar se protegendo de sofrer no caso de uma potencial traição, o que não é verdade, pois, seja qual for a relação, quando há traição, existem reações muito similares em ambos. “Há também a possibilidade de que a paixão sexual possa trazer medo da perda e seu consequente sentimento de posse”, explica o psicanalista Miguel Perosa, da PUC-SP.
Para o psicanalista, o sentimento está mais atrelado ao gênero do que propriamente ao tipo de relacionamento. Portanto, quando se trata de sentir ciúme, por exemplo, independente do tipo de envolvimento, é mais comum que ocorra na mulher, da mesma forma que ela também está mais propícia a perdoar do que eles. E o tempo para mudanças efetivas desta condição ainda é pouco, apesar da evolução nos últimos 50 anos. “Assim, parece-me que o ciúme da mulher esteja mais relacionado ao afeto (e por isso é mais fácil para ela perdoar uma traição sexual do homem) e o do homem mais relacionado ao sexo (e por isso é muito difícil para o homem perdoar uma traição sexual)”, afirma.
Por outro lado, para quem se relaciona por amor, a confiança reinante jamais permitirá que algo afete a relação, pois ela esta firmada num sentimento sólido, superior, mesmo que as evidências sejam fortes o suficiente para o desencadeamento de uma crise conjugal. Perosa diz que isso acontece porque ao longo do tempo o sexo perde o papel principal no fundamento da relação e passa a a ser substituído nesse quesito pelo afeto, pelo companheirismo.
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