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São José do Rio Preto, 14 de Janeiro, 2010 - 0:06
Após separação, pais tentam manipular os filhos

Francine Moreno

 

Lézio Júnior/ Editoria de Arte
A prática de pai ou mãe que tenta prejudicar a imagem do outro para o filho de forma pressionada, fazendo com que a criança passe a detestar um deles, pode ter como castigo a perda da guarda e até a privação da autoridade parental, ou seja, o poder familiar do pai ou da mãe. Chamada de alienação parental, esse tipo de conduta ocorre especialmente nos casos de separação e pode ter resultado doloroso para a criança, como distúrbios psicológicos capazes de afetá-la para o resto da vida.

Além de privar o direito fundamental da criança ao convívio familiar saudável, as atitudes raivosas de ex-maridos ou ex-mulheres podem provocar nos filhos depressão, dificuldade de aprendizado, sentimentos de rejeição, revolta, afastamento e, em casos mais extremos, até ao suicídio. “Como é consequência de um mero desentendimento entre os pais, a alienação da criança é considerada um abuso emocional”, afirma a psicóloga comportamenatal Maria Luisa Medeiros.

O alienador é, geralmente, quem tem a guarda do filho. “A prática é mais comum com as mulheres”, afirma a psicóloga cognitivo-comportamental Irene Araújo Corrêa. Mas não é regra. “Há muitos homens que utilizam este artifício na tentativa de manipular o comportamento da ex-esposa. Importante entender que esta é uma atitude egoísta, pois não reflete a realidade”, revela Irene.

A estudante L.A.N., de 22 anos, sabe bem o que é esse tipo de comportamento. Ouviu a vida toda que sua mãe não queria contato e que a havia abandonado. L. acreditou e tomou a opinião do pai como sua. “Meu pai disse que minha mãe era alcoólatra e, para me preservar, não queria que eu tivesse nenhum contato. Quando completei 18 anos, minha avó paterna contou toda a verdade. Foi meu pai quem deixou minha mãe para viver um novo casamento, mudou de Estado e fez chantagem quando ela buscou notícias.” Quatro anos depois, a estudante mora com a mãe e não tem nenhum contato com o pai. “Apesar de ter descoberto a verdade, minha vida nunca vai ser normal. Tenho dificuldade em lidar com as frustrações da vida e a minha autoestima é muito baixa.”

São inúmeras as formas de alienação parental. Desqualificar a conduta do ex-companheiro, dificultar o contato da criança com o outro genitor, omitir informações relevantes da vida da crianças (escolar, médica, alteração de endereço) e apresentar falsa denúncia são alguns dos indícios. “Pais devem ficar alertas quando os filhos reagem com culpa, evitam proximidade, cobram e se queixam de abandono o tempo todo sem razão aparente”, afirma Irene.

Com o tempo, porém, o filho pode perceber a manipulação e ficar contra o pai ou a mãe que jogou sujo, como o caso da estudante L.A.N. “Quando o filho percebe que foi ou está sendo usado por alguém que deveria protegê-lo, pode se revoltar ou não assimilar bem e se afastar.”

Na opinião da psicóloga Itaisa Bertolini Gouveia, a resolução da desagradável descoberta dependerá de algumas situações, como o grau da mentira que foi usada, o quanto ela foi prejudicial, o vínculo que ele tem com a mãe ou pai, a idade, se há tempo para se resgatar o que não viveu, se o pai ou mãe afastado anda próximo e seu próprio temperamento.”

No âmbito psicológico, pai ou mãe deve conversar francamente para que o filho não sofra com a atitude do ex-parceiro. “É importante explicar para o filho que o ex-parceiro está reagindo assim na tentativa de afastá-los como punição pelo fim do casamento e que ele não deve se envolver. Outra alternativa é convocar um diálogo franco no qual os filhos participem, sempre que houver possibilidade em função da idade e do discernimento. Caso as crianças sejam pequenas, o mais indicado é procurar aproveitar o momento com elas, Aos poucos, criará uma imagem diferente”, revela Irene.

Quando a implantação de falsas memórias ou frustração já manipulou os filhos, o pai ou a mãe difamado deve ter paciência para retornar uma boa relação com os filhos. “Só o tempo irá modificar as reações, os estragos e as mágoas que o comportamento enviesado causou. Para que isso ocorra de maneira saudável, é preciso ter responsabilidade e maturidade e não entrar no jogo do ex-cônjuge”, afirma Irene.

Documentário revela conflito entre pais e filhos

Casos de pais que caluniam e tramam afastar o filhos dos ex-parceiros são tão comuns que foi aprovado na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados um projeto de lei que pune a conduta do pai ou da mãe que comete o ato. A lei estabelece punições como advertência, multa e perda da guarda da criança para o autor da má conduta.

O número de casos de alienação parental também incentivou o cineasta Allan Minas a produzir o documentário “A Morte Inventada”, lançado em abril do ano passado. O filme retrata o distúrbio gerado durante as disputas pela custódia de um filho na ocasião da separação de um casal, de maneira que um dos genitores procura alienar a criança no sentido de afastá-la do outro. Segundo a sinopse, os pais testemunham seus sentimentos diante da infância quando sofreram com esse tipo de abuso, revelam como a alientação parental interferiu em suas formações, em seus relacionamentos sociais e, sobretudo, na relação com o genitor alienado. O filme também apresenta profissionais de direito, psicologia e serviço social que discorrem sobre as causas, condições e soluções da questão.

De acordo com a psicóloga cognitivo-comportamental Irene Araújo Corrêa, os pais que estão sofrendo com a alienação não devem se afastar de seu filho e não agredir o ex, orientar a criança sobre o que está ocorrendo, sem demonstrar raiva ou ódio, além de não entrar no jogo da outra pessoa. “Mantenha-se calmo e se souber de falas da outra pessoa na tentativa de prejudicar sua imagem, busque ajuda de um terapeuta ou mesmo ajuda jurídica para resolver a questão. Não entre em confrontos ou tome atitudes extremadas”, diz. (FM)

Saiba mais:


Para ajudar os pais a identificar quando é que seus filhos podem estar sendo vítimas da alienação parental, o advogado Euclydes de Souza juntou as seguintes situações:

:: “Cuidado ao sair com seu pai ou mãe . Ele(a) quer roubar você de mim”
:: “Seu pai ou mãe abandonou você”
:: “Seu pai ou mãe não se importa com você”
:: “Você não gosta de mim. Me deixa em casa sozinha para sair com seu pai ou mãe”
:: “Seu pai ou mãe não me deixa refazer minha vida”
:: “Seu pai ou mãe me ameaça , ele vive me perseguindo”
:: “Seu pai ou mãe não nos deixa em paz, vive chamando no telefone”
:: “Eu fico desesperado(a) quando vocês saem com seu pai ou mãe”
:: “Seu pai ou mãe bateu em você , tente se lembrar do passado”
:: “Seu pai ou mãeé muito violento(a), ele(a) vai te bater”

 
     
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