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São José do Rio Preto, 7 de Janeiro, 2010 - 0:06
Agitação, falta de concentração são sintomas da hiperatividade

Francine Moreno

 

Lézio Júnior/ Editoria de arte
Inquietação, baixo rendimento escolar, ansiedade, alterações bruscas de humor, distração e instabilidade emocional. Se você reconhecer esses sintomas em seu sobrinho ou filho, é sinal de que ele pode sofrer de hiperatividade - distúrbio que confunde a cabeça de pais e atinge de 3% a 5% das crianças em todo o mundo. E o diagnóstico deve ser rápido e exige que o médico seja qualificado no assunto, já que os sintomas da doença podem ser confundidos com mau comportamento, como teimosia e rebeldia. Crianças com hiperatividade também enfrentam maior risco de apresentar outras doenças psiquiátricas.

O cérebro de crianças hiperativas mostra um funcionamento alterado na área responsável pelo domínio dos impulsos e na filtragem dos estímulos. É caracterizado sobretudo por uma agitação interna e externa acompanhada de outros sintomas de forma intensa e persistente, que prejudica o desempenho. Pode aparecer com ou sem déficit de atenção e também pela impulsividade. “Crianças, em geral, são bem ativas, mas a diferença é que a criança hiperativa mostra um excesso de comportamentos em relação às outras, além de ter dificuldade para manter a concentração. Dependendo da gravidade destes sintomas, a hiperatividade pode comprometer o desenvolvimento e a expressão linguística, a memória e as habilidades motoras”, afirma a psicóloga familiar e supervisora em psicodrama, Maria Aparecida Junqueira Zampieri.

Descobrir a doença não é um processo lento. Os sintomas são expressivos. “Dificuldade para permanecer sentada por longos períodos, para seguir ordens para tarefas sequenciais e repetidas, interromper com frequência as conversas de pessoas, agitação motora mesmo em atividades que requerem certa concentração, responder de sobressalto mesmo antes do final da questão e realização de várias atividades simultaneamente sem o término adequado das anteriores”, lista o psicólogo Nelson Iguimar Valerio, docente e pesquisador da Famerp.

Maria Aparecida Zampieri elenca ainda outras possibilidades para a hiperatividade: “Desde alterações metabólicas e hormonais, intoxicação por chumbo, complicações no parto, abuso de substâncias durante a gestação, até problemas situacionais, como crises familiares como luto, separação dos pais e outras mudanças, que podem ser traumáticas para crianças e levarem a um quadro de hiperatividade reativa.”

O diagnóstico, de acordo com a psicóloga Mara Lúcia Madureira, é fundamentalmente clínico. Mas é importante, segundo ela, não se restringir ao número de sintomas no diagnóstico, mas ao grau de prejuízo, que deve ser sempre avaliado a partir das potencialidades do paciente e do grau de esforço necessário para a manutenção do ajustamento.

Na opinião de Valerio, o diagnóstico deve ser feito por profissional especializado, que tenha conhecimento dos critérios combinados. “O manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da Associação Americana de Psicologia e Psiquiatria possui critérios diagnósticos bem definidos para este transtorno. A aplicação de tais critérios deverá ser feita somente por profissionais habilitados, como psiquiatras, neurologistas e psicólogos. Demais profissionais devem levantar as hipóteses e encaminhar a criança e seus cuidadores aos profissionais habilitados.”

A atenção dos pais e familiares em relação ao comportamento da criança é imprescindível, uma vez que a maior parte do comportamento hiperativo constitui do processo de aprendizagem cotidiana que foi condicionada no convívio familiar. “O comportamento paterno e de demais familiares deve ser avaliado e orientado no sentido assertivo. A atenção dos pais, no sentido de observar alterações no comportamento da criança durante a fase pré ou mesmo escolar, é fundamental para o diagnóstico mais precoce possível”, afirma Valerio.

Para o especialista, atitudes de rebeldia e de teimosia também fazem parte de repertórios de crianças hiperativas. Mas tais comportamentos não são o núcleo central do diagnóstico pois tais comportamentos também constituem atitudes de crianças não hiperativas. “Foram aprendidos no convívio e ou representam estilos de personalidade da criança. Tais comportamentos também devem ser remodelados para que não causem prejuízos significativos nos relacionamentos destas crianças”, revela Valerio.

A inteligência da criança hiperativa não é comprometida pela doença, mas é compreensível que a produção caia. “Existe diferença no funcionamento do cérebro. O córtex pré-frontal não funciona como seria esperado e a pessoa enfrenta dificuldades, como comprometer a memória e o controle de impulso”, afirma a psicóloga Maria Aparecida Zampieri. Valerio acrescenta que o que deve ser analisado é se a criança possui um potencial de inteligência que supere as atividades que está executando. Se for isso, ela pode até estar sendo hiperativa por não ter seu potencial de inteligência aproveitado dentro do contexto. “Um exemplo muito comum disso são crianças que resolvem com muita facilidade as tarefas oferecidas pela professora, enquanto seus colegas ainda estão executando-as.”

Família deve estar envolvida no tratamento

O tratamento da hiperatividade envolve uma abordagem múltipla, englobando intervenções psicossociais e psicofarmacológicas. De acordo com a psicóloga Mara Lúcia Madureira, o primeiro passo deve ser educacional, por meio de informações claras e precisas à família a respeito do transtorno. Muitas vezes, é necessário um programa de treinamento para os pais, a fim de que aprendam a manejar os sintomas dos filhos. Já as intervenções escolares devem ser focadas no desempenho escolar. “Rotinas diárias consistentes e ambiente escolar previsível ajudam a manter o controle emocional. Estratégias de ensino ativo que incorporem a atividade física com o processo de aprendizagem são fundamentais. As tarefas propostas não devem ser demasiadamente longas e necessitam ser explicadas passo a passo. É importante que o aluno receba o máximo possível de atendimento individualizado.”

Segundo Mara, a criança hiperativa deve ser colocada na primeira fila da sala de aula, próxima à professora e longe da janela. “Muitas vezes, as crianças precisam de reforço de conteúdo em determinadas disciplinas. Isso acontece porque elas já apresentam lacunas no aprendizado no momento do diagnóstico, em função do transtorno. É necessário acompanhamento psicopedagógico centrado no aprendizado, por exemplo, aspectos ligados à organização e ao planejamento do tempo e de atividades. O tratamento reeducativo psicomotor pode ser indicado para melhorar o controle do movimento”, diz.

A psicoterapia individual de apoio ou de orientação analítica pode ser indicada para transtornos depressivos e de ansiedade, e de sintomas que comumente acompanham a hipertividade (baixa autoestima, dificuldade de controle de impulsos e capacidades sociais pobres). “A modalidade psicoterápica mais estudada e com maior evidência científica de eficácia para os sintomas centrais do transtorno (desatenção, hiperatividade, impulsividade), bem como para o manejo de sintomas comportamentais comumente associados (oposição, desafio, teimosia), é a cognitivo-comportamental, especialmente as comportamentais”, afirma Mara Lúcia.

Na opinião da especialista, a indicação de psicofármacos para o transtorno depende da situação. “Estimulantes são as medicações de primeira escolha. No Brasil, o único estimulante encontrado no mercado é o metilfenidato. Cerca de 70% dos pacientes respondem adequadamente e toleram bem os estimulantes.”

Transtorno tem controle

Se a criança não for tratada desde cedo, poderá ter acentuadas na fase adulta sintomas de distração, falta de concentração e deficiência na coordenação de ideias. “A não identificação precoce do quadro pode favorecer outras alterações associadas e decorrentes do problema originário”, afirma o psicólogo Nelson Iguimar Valerio, docente e pesquisador da Famerp. Entretanto, a tendência natural de pessoas hiperativas na infância é ter diminuição de tais sintomas a partir da adolescência e da vida adulta - a chamada autorregulação. “Porém, não se deve esperar para ver o que pode acontecer. Não se deve apostar nesta resolução natural.”

Hiperatividade não tem cura, tem manejo e controle. “Modificar repertórios inadequados por adequados e valorizados na sociedade, e aprender a entender e conduzir com melhor propriedade os comportamentos, podem gerar reforçadores e contingências favoráveis e não punições ou críticas”, explica.

 
     
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