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São José do Rio Preto, 8 de Julho, 2010 - 1:45
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Amor sobre todas as coisas
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Orlandeli/ Editoria de arte
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O amor de Deus pela humanidade, que teria dado seu único filho para morrer por nós, costuma ser lembrado por quem acredita como um gesto exclusivo divino, e que nós, pobres seres mortais, seríamos incapazes de amar de forma tão incondicional, o que lança a questão: “Será que existe amor incondicional mesmo? Quais as condições implícitas nessa palavra ‘incondicional’?”, pergunta o psicólogo e psicanalista pós-graduado pela USP Lazslo Ávila, professor adjunto da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) e autor do livro “Eu e o corpo” (Ed. Escuta).
Ávila observa que, em geral, o que denominamos de amor incondicional é, na verdade, um amor maior, não egoísta, que renuncia a qualquer coisa para vivenciá-lo. “Creio que o ‘incondicional’, para a maioria das pessoas, pode ser resumido como ‘esse amor significa tudo para mim’”, diz.
O psicólogo afirma que o sentimento varia de pessoa para pessoa, por isso, não se pode dizer, por exemplo, que só é capaz de amar incondicionalmente quem renuncia a algo muito importante. Até porque, o que significa muito para alguém pode não significar para outra. Para alguns indivíduos, lembra Ávila, é impensável renunciar ao dinheiro, para outras, à honra, dignidade, ao orgulho, às certezas e convicções, à fé, pátria, aos filhos, o próprio corpo e daí por diante.
O amor é provavelmente a coisa mais importante na vida de todo ser humano. Porém, por mais sublime que seja esta forma “incondicional” de amar, cabe avaliar a que ou a quem renunciar por um amor incondicional.
Equilíbrio
Para Lazslo Ávila, é preciso considerar a saúde mental do indivíduo quando se aborda o assunto. Existem muitas formas de desequilíbrio, de sofrimento. Assim, é muito diferente pensar no “amor incondicional” que uma pessoa muito equilibrada e saudável sente comparado ao que alimenta uma pessoa muito carente, ansiosa, deprimida, com problemas familiares, entre outros. “É preciso muito cuidado para avaliar quem é que está vivendo esse ‘amor incondicional’”, diz.
E quando se torna incondicional devido a problemas emocionais prévios, que fizeram a pessoa agarrar-se ao seu amor como última tábua de salvação? Nesse caso, talvez só o amor não baste e seja necessário também de ajuda para que essa pessoa primeiro recupere seu equilíbrio, sua saúde emocional, e depois entregue-se a esse amor.
Após descartar qualquer das possibilidades acima, aí sim, é possível se considerar a existência de um amor sublime, incondicional, que de tão verdadeiro pode superar tudo, até mesmo as limitações do indivíduo. Ávila acredita que, embora muito raro, é possível se falar nesta forma de manifestação do sentimento quando se remete a santos ou personalidade como Madre Tereza de Calcutá, Gandhi e o próprio Cristo.
“Penso que esse amor realmente incondicional eleva espiritualmente o ser humano. E seria, sim, extremamente positivo e saudável se muito mais pessoas fossem capazes de amar incondicionalmente, e se esse amor se dirigisse a toda a humanidade. Então teríamos muito mais chances de concretizar um mundo melhor”, afirma.
Crescimento
Pode-se alcançar a felicidade plena por meio do amor, mas para isso, é preciso fazer do sentimento uma experiência positiva de crescimento próprio e de enriquecimento a dois. “Por isso, quem necessita de um amor incondicional da parte do outro deveria se perguntar se está disposto a oferecer o mesmo. É só nesse encontro sem condições que se pode amar incondicionalmente”, declara Ávila.
Já o psicanalista Miguel Angelo Yalente Perosa, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), observa que o amor incondicional é aquele que não precisa de retorno para existir, não precisa ser correspondido em consideração e apreço. Ele se basta. “A satisfação do amor incondicional está no ato de exercê-lo e não no retorno, no é dando que se recebe. Recebe-se imediatamente na satisfação de amar.
Seria saudável que pelo menos para os mais próximos fôssemos capazes deste amor incondicional”, afirma. Perosa acredita que é neste tipo de amor que se exerce o melhor de cada um. Ele é construído a partir da nossa capacidade de doação, no exercício dos nossos melhores propósitos.
Contudo, reconhece que o sentimento pode, sim, ser prejudicial, quando é usado para evitar que se viva todas as necessidades na essência, encobrir a culpa dos desejos pessoais, entre outros. Além disso, os deprimidos podem fazer mau uso deste amor, e também aqueles que o recebem como satisfação de uma exigência, espécie de pagamento de uma dívida, como se o mundo devesse para eles.
Perosa afirma que dificilmente quem ama incondicionalmente será enganado porque estará muito atento às necessidades do outro. “Pode até parecer, muitas vezes, que quem ama está sendo enganado por aquele que é amado. Mas trata-se de doação, não de engano. Falo do amor incondicional, não do amor cego e apaixonado. Este sim pode ser ludibriado. Quando ele ocorre na vida de uma pessoa, a primeira modificação que ocorre é temporal. A pessoa tolera, entende, espera o crescimento e amadurecimento da pessoa amada”, afirma.
É deste amor que Renato Russo falava quando fez a música “Monte Castelo”. O amor que tem paciência e a alegria de saber que o tempo corre a seu favor. Para Perosa, é importante que se possa sentir este tipo de amor incondicional. Do contrário, é preciso repensar as relações com as pessoas. “Você será amado incondicionalmente se for uma pessoa boa, de bom coração e correto nas suas atitudes com os outros.
Mas, se pelo contrário, você pensa que suas relações são feitas apenas de troca de interesses, jamais experimentará o amor incondicional”, afirma Perosa, que rebate quem pensa que, com suas opiniões, está muito idealista ou desconhecedor das contradições humanas. “As contradições existem, os homens não são apenas bons ou maus. Mas o amor incondicional existe e, muitas vezes, é exercido em plenitude. Seja nas relações de amor entre casais, entre pais e filhos, entre os religiosos e seus rebanhos. Sou testemunha disso no meu consultório e na minha vida.”
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