Rita Magalhães
   
10 de março
2010
Declaração desastrosa
 
Repercutiu mal a declaração de Lula em relação à greve de fome do dissidente cubano Guilhermo Fariñas, que já dura 16 dias. Hoje, os jornais Folha de São Paulo e Estadão estão recheadas de artigos com críticas a Lula. Óbvio. O presidente rasga a própria história ao declarar que "a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."
Clóvis Rossi tem razão ao escrever que, ao equiparar a motivação (política) dos dissidentes a uma eventual ação similar dos criminosos de São Paulo, Lula está se declarando um ex-delinquente. Afinal, Lula fez greve por motivos políticos e agora a repudia. Que feio!
O melhor que Lula tem a fazer - em nome da democracia e do próprio passado - é recuar da declaração e pedir desculpas urgentes.
 
 

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10 de março
2010
CORPO DE BOMBEIROS COMPLETA 130 ANOS
 
O Corpo de Bombeiros comemora hoje 130 anos de existência. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, como presente, a corporação recebeu, do Governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo, um investimento de R$ 6,7 milhões em viaturas e equipamentos.

O pacote inclui dez viaturas autobombas, usadas em ocorrências de incêndio e salvamentos; cinco martelos rompedores e respectivos compressores, para ocorrências de desabamentos; duas motos-aquáticas, para prevenção de afogamentos na Represa Guarapiranga; oito barcos para prevenção de afogamentos em outras represas; kits com roupas de neoprene, flutuadores, nadadeiras, cordas, fita zebrada (para isolar áreas) e coletes salva-vidas; 31 botes infláveis; 17 quadriciclos para prevenção de afogamentos no litoral paulista; duas viaturas operacionais; 68 desencarceradores, para retirada de vítimas presas em ferragens; 160 conjuntos de Equipamentos de Proteção Respiratória, para utilização dos bombeiros em ocorrências de incêndio; e cinco lanchas, também para prevenir afogamentos em praias, lagos e represas em todo o Estado.

Só nos cabe saber se os aniversariantes da região de Rio Preto vão receber uma fatia desse bolo.

Parabéns à corporação!
 
 

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10 de março
2010
Hospital da Criança
 
Há menos de três meses, o deputado Vaz de Lima e diretores do Hospital de Base afirmaram, em entrevista exclusiva ao Diário, que, neste mês de março, seria inaugurado o Hospital da Criança.
Na época, a data foi dada como certa e não mera especulação. Agora que março chegou ninguém, nem Estado, nem Vaz de Lima, nem representantes da Funfarme, sabe ou tem estimativa de quando o hospital começa a funcionar.
Estranho. Bastante estranho.
 
 

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09 de março
2010
Quando o substantivo e o artigo se encontram
 
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula... ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso, a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.
O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.
Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.
Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma “mesóclise-a-trois”.
Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Ponto final."

Redação feita por uma aluna do curso de Letras da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco - Recife

 
 

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09 de março
2010
Momento Fernando Pessoa
 
Ser grande

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 
 

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Rita Magalhães é jornalista do Diário da Região desde 23 abril de 2007. Iniciou no jornalismo em 1990 na extinta Folha Nordeste, hoje Folha Ribeirão, regional da Folha de São Paulo, onde permaneceu até o final de 1996. Se especializou no setor de Segurança Pública e Justiça.

Foi repórter do Diário da Região, entre 97 e 99, ano que venceu o prêmio Esso Interior com a "Máfia dos Cadáveres", série de reportagem investigativa que revelou a venda de corpos de indigentes e idosos de asilos para faculdades de medicina e odontologia do Estado. Também foi repórter do Grupo Estado entre os anos de 2002 e 2007, escrevendo para Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo.

rita.magalhaes@diarioweb.com.br
 
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