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25 de agosto
2010 |
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Fernanda Montenegro
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A trajetória artística de Fernanda Montenegro se confunde com a da própria televisão e do teatro brasileiro a partir da segunda metade do século 20.
Nos palcos, esteve em quase todas as peças de Giani Ratto na década de 50, interpretou personagens de Pirandello, Bernard Shaw, Rainer Werner Fassbinder (mais conhecido por sua contribuição ao novo cinema alemão), Beckett, Tchekhov, Nelson Rodrigues.
Seu legado não é menos volumoso na televisão e no cinema - e como esquecer que foi com ela que batemos na trave do Oscar de melhor atriz, com "Central do Brasil".
Sim, por tudo isso, Fernanda Montenegro é um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira em todos os tempos.
Tive a honra de entrevistar Paulo Autran (nunca me esqueço de quando deixei um recado em sua caixa postal sem esperança alguma de retorno quando toca meu telefone na redação e uma voz doce e mansa do outro lado diz: "Igor? É Paulo").
Fernanda é o Paulo Autran de saias e eu espero um dia também ter a chance de entrevistá-la.
Mas...
(esse é o momento em que eu pego meu escudo da tropa de choque para me proteger das pedras que vão voar sobre mim)
...não acho Fernanda Montenegro (essa Fernanda atual) uma boa atriz.
(...)
Sei que mexo em terreno sacrossanto, mas é o seguinte: se você reparar, mas reparar bem, vai perceber que a Fernanda Montenegro deixa vazar em todos os seus personagens mais recentes um certo maneirismo no jeito de atuar, difícil de explicar em palavras, mas que está lá, eu vejo.
Acho louvável que ela, aos 80 anos, segure no braço um papel protagonista de novela das oito. E respeito profundamente suas quase seis décadas de dedicação à arte do ator.
Mas não compartilho da opinião de quem a considera até hoje uma grande atriz.
Para mim, bom ator tem de ser versátil. Com base nessa lógica, sou mais Meryl Streep, sou mais Lília Cabral. Gente, sou mais até o Brad Pitt... Fernanda deixou de ser versátil quando virou refém de sua técnica.
Para reforçar a tese com outros atores de "Passione", é o mesmo problema que vejo num Francisco Cuoco, num Flávio Migliaccio (se bem que esse, mais do que os outros, acaba sendo vítima da "persona" que se criou em cima dele, e que os autores de novela só fazem reforçar).
O que eu discuto é se a importância histórica, o legado de alguns artistas, é suficiente para construirmos à frente deles uma barreira que os impeça de receber qualquer crítica - sob pena do crítico ser esquartejado em praça pública.
Não se trata de desrespeito a estes senhores e senhoras que tanto fizeram pela arte brasileira, mas de poder enxergas as coisas como elas verdadeiramente são (pelo menos aos olhos de quem se deixa levar pela versão do senso comum).
É por isso também que não gosto do Roberto Carlos e essa história toda de "rei".
Mas isso fica para um próximo post.
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20 de agosto
2010 |
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Sobre Christopher Nolan
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Como bati na tecla da forma no post anterior com relação a "A Origem", faltou destacar que esta é uma preocupação, ou, no mínimo, uma evidência no cinema do diretor Christopher Nolan.
É preciso lembrar que o primeiro filme a lançar com mais força a luz dos holofotes sobre seu nome, "Amnésia", já apresentava um intrincado recurso narrativo, com a história sendo contada de trás para frente. Ainda que esta ideia passe longe de ser uma novidade no cinema, que nome vem à sua cabeça quando você pensa num filme contado de trás para frente? Na minha vem "Amnésia".
Depois, em um filme que passou mais batido, "Insônia", Nolan rompe com o código do filme noir - que tem como uma de suas "regras" básicas o uso de paletas escuras, a ambientação à noite - ao transportar a história para o verão do Alasca, quando praticamente não existe noite.
Outro exemplo? "O Grande Truque", que também apresenta uma estrutura narrativa um tanto complexa e ambiciosa, com mais de um narrador, flashbacks dentro de flashbacks, não se esquecendo das reviravoltas em cima de reviravoltas - um velho truque do cinema, mas que o diretor realiza com sucesso, sem deixar o filme "boring" (como diria o Mateus?).
Já deu para perceber que eu curto o trampo deste cara, né? Chris Nolan é um sujeito que anda no limite do risco - e sempre sai ileso dele.
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19 de agosto
2010 |
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A Origem (ou como a forma, às vezes, vale tanto quanto o conteúdo)
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Estou devendo a mim mesmo um post sobre o filme "A Origem", porque havia decidido escrever sobre ele quando o assisti no primeiro final de semana de estreia, há o quê, umas duas semanas?
A vontade de trocar uma ideia com vocês sobra a obra de Christopher Nolan só fez aumentar quando vi o longa pela segunda vez, então com um grupo de amigos, quatro dias depois.
Como estou escrevendo do meu computador do jornal e meio sem tempo, vou tentar ser breve no comentário, talvez tendo de eliminar a parte de "contar a história" -então, se não assistiu a "A Origem", talvez este post não seja para você.
São várias as direções de análise possíveis, o filme permite isso (tanto que a internet já está recheada de fóruns de discussão nerdísticos sobre as teorias propostas por Nolan), mas o que eu quero é só ponderar sobre algumas coisas que me chaparam.
Assistir a "Origem", logo de cara, me causou a sensação de estar diante de algo novo, como "Matrix", em 1999, e acho esta comparação bastante justa - com as duas obras.
Novo não no sentido de "Avatar", por exemplo, uma novidade mais em termos de experiência visual - que aliás está presente em "A Origem", mas não se basta nela, até porque, em filmes como "Batman Begins" e "O Cavaleiro das Trevas", Nolan já havia nos mostrado que mesmo quando lida com a fantasia (e há algo de fantástico também em "A Origem") não abre mão de uma direção de arte mais próxima da realidade.
Realidade, olha que curioso, é justamente o conceito colocado em xeque pelo diretor neste que, para mim, é seu trabalho mais ambicioso - e como é bom saber que existe vida inteligente no cinemão, gente interessada em fazer arte mesmo tendo de jogar com as peças do tabuleiro de Hollywood.
Mais do que explorar um terreno ainda inóspito para nós - o terreno dos sonhos, onde tudo é possível.
Mais do que remexer de forma elegante no velho conceito do que é realidade e ficção.
Mais do que quebrar códigos.
Mais do que usar estes conceitos para refletir sobre o próprio cinema (construir sonhos a fim de implantar uma ideia no nosso imaginário, enquanto impunemente comemos nossa pipoca... não é disso afinal que trata a sétima arte, gente?)
Mais do que tudo isso... quero dizer, mais do que a história em si: o que me faz colocar "A Origem" como o melhor filme que eu vi até agora em 2010 (junto com "Kick Ass", por razões diferentes) é a ARQUITETURA da trama.
Quando o filme entra em sua metade final, a ação se divide em quatro níveis diferentes (dentro daquela ideia do sonho dentro do sonho).
O objetivo é: implantar uma ideia no plano mais profundo do inconsciente da vítima de modo que ela, quando acordar, pense que a ideia é sua, e não que tenha sido forjada por invasores.
Cada personagem, ou grupo de personagens, realiza uma tarefa no nível que lhe cabe, de modo que esta tarefa interfira na dinâmica do nível que está abaixo ou acima.
E tudo isso tendo de respeitar as diferentes velocidades de tempo de cada um destes planos (5 minutos no nível mais superficial do sonho equivale a 1 hora no de baixo, acho que é isso).
É tanta coisa, tanta ambição narrativa... outro diretor talvez se enrolasse na própria rede, sem achar um caminho para contar esta história de modo minimanente compreensível, dar a ela um pouco de ordem.
Mas Nolan consegue. E faz isso com elegância (acho que já usei essa palavra), destreza e, por que não, clareza.
Respeito a obra de arte que me pega em igual medida pela forma e pelo conteúdo - e olha, não venham me pedir para me posicionar que é bem capaz de eu escolher a forma. Por tudo isso "A Origem" fez minha cabeça. Filmaço.
E tem ainda a trilha sonora, que cria uma permanente atmosfera de urgência. E tem ainda... bom, deu né, vou parar por aqui.
(e eu que disse que ia ser breve)
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› (1) Comentários
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Comentario de:
alex_rp
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23/08/2010
as
04:24
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segue a música do trailer http://www.youtube.com/watch?v=lOJqicM6x84 Booooww
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13 de agosto
2010 |
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Faroeste Caboclo
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Outro dia, sintonizando o rádio do carro enquanto dirigia, pego "Faroeste Caboclo", no comecinho, e vou embora com a canção até o final.
Há muito tempo penso que a tragédia grega deste macunaíma candango que é o João de Santo Cristo, escrita por Renato Russo aos 18 anos, tem todos os elementos para um bom filme. Ok, ok, eu e a torcida do Corinthians pensamos nisso, de tão óbvio que é.
A história do garoto negro, nascido numa fazenda da Bahia, que cai no mundo, vai para o Distrito Federal ser carpinteiro, mas "por influência dos boyzinhos da cidade" vira bandido, traficante, é preso (duas vezes), apaixona-se por Maria Lúcia, tenta se redimir reassumindo o antigo ofício - mas o crime, nas tragédias, é essa cruz que acompanha - e ele, em sua segunda ida para a prisão, perde Maria Lúcia para seu arqui-inimigo, Jeremias, a quem desafia para um duelo. No sábado, então, às 2 horas, todo o povo sem demora está lá para assistir... ao desfecho da saga de João de Santo Cristo.
Como eu disse, as bases para um roteiro de cinema (cinemão mesmo, com os arcos dramáticos óbvios e tudo o mais) estavam ali desde que a Legião Urbana lançou o disco "Que País É Este?". Faltava alguém virar e dizer: "Ah é, então eu vou fazer."
Desde 2007 que eu ouço que "Faroeste Caboclo" vai virar filme. O projeto está nas mãos do diretor René Sampaio, com roteiro de Paulo Lins (que trabalhou com Bráulio Mantovani na feitura de "Cidade de Deus").
Eu não sei. A última notícia que li dava conta de que, depois de resolver as tretas de direitos autorais com a família de Renato, as gravações começariam em meados deste ano, com estreia prevista para dezembro.
Alguém tem notícias se "Faroeste", o filme, tá mesmo vingando ou não?
Enquanto o longa não sai, vocês se divirtam com esta versão animada meio tosquinha. Até mais, amigos
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13 de agosto
2010 |
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Faroeste Caboclo II
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Eu devia contar uns 11 anos quando ouvi "Faroeste Caboclo" pela primeira vez.
A música fazia parte do álbum "Que País é Este?", que havia sido lançado havia uns três anos.
A primeira audição se deu com uma fita cassete do irmão mais velho de meu melhor amigo até hoje - hoje dois grandes publicitários.
Claro, a música chamava atenção pela duração, mas o que nos interessava, disso eu me lembro bem, era ficar atento para aqueles dois ou três momentos da saga de João de Santo Cristo em que Renato Russo dizia "palavrões".
A música tem 159 versos, mas para nós, moleques pré-adolescentes, o barato estava em escutar apenas "Não protejo general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o cu na mão" ou "Olha pra cá filha da puta sem vergonha".
Para mim aquilo era o auge da transgressão, mais pela inocência da idade do que pelo contexto político do país, então há poucos anos sem ditadura - mas que criança, ainda mais do interior, poderia ter qualquer percepção do que era ditadura, censura, libertade de expressão naquela época? Hoje dá para refletir sobre uma possível transgressão sob este viés. Não naquele tempo.
Lembro-me que eu troquei três "hominhos" de Comandos em Ação pela fita cassete e saí satisfeito com o resultado do negócio.
Nunca fui um fã deluxe da Legião Urbana, como alguns amigos daquela época; no máximo um fã standart, daqueles que conhecem as músicas que todo mundo conhece, e se conhece uma outra faixa fora do mainstream da época era por osmose, na convivência com esses amigos mais fanáticos, durante madrugadas que pareciam intermináveis jogando pôker e War durante as férias.
Oh, man, good times
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› (1) Comentários
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Comentario de:
Fabrício Carareto
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19/08/2010
as
05:11
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Igor, eu lembro que, na versão tocada nas rádios, o verso era "Olha pra cá, olha para cá sem-vergonha". Os palavrões eram suprimidos em nome da moral e dos bons costumes - resquícios da ditadura. Igual a música "Filha da Puta", do Ultraje, que o refrão era substituído por uma buzina, se não me engano. Só após algum tempo eu, adolescente, fui ouvir a versão proibida sem cortes.
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