O DONO DA ROUPARIA
São José do Rio Preto, 2 de Setembro de 2007
  Lézio Júnior  



Um time de futebol não se resume aos 11 jogadores que entram em campo, os sete que ficam no banco e o treinador. Existe todo um aparato por trás, mobilizado diariamente para que a boleirada cumpra sua parte dentro das quatro linhas. A estrutura começa pela diretoria, passa pela comissão técnica e conta com a equipe de apoio, figura essencial para o funcionamento da máquina. Cozinheira, faxineira, lavadeira, massagista, roupeiro e motorista integram esta equipe de apoio. Gente simples, dedicada e pouco valorizada, que não aparece para a torcida, mas brilha nos bastidores. Como é bom ver o time ir para o combate todo arrumadinho, com um uniforme impecável. As camisas, calções e meias podem ser surradas pelo tempo, mas ficam reluzentes depois de um bom trato da lavadeira e do roupeiro. Desde a sua fundação, em 1946, o América contou com mordomos aplicados. O melhor deles, sem dúvida, foi Juvenil Moreira, que nasceu no dia 22 de setembro de 1926 em Matão, onde ganhou a vida por muito tempo como trabalhador rural. Casou-se com Xista Rosa, com quem começou a constituir uma família. Poucos anos após o enlace nasceram os filhos Maria Aparecida, Florivaldo e Conceição.

A vida estava difícil na lavoura e Juvenil Moreira decidiu arriscar a sorte em São Paulo. Foi para a Capital com uma mão na frente e outra atrás, em 29 de dezembro de 1955. Peregrinou por vários lugares em busca de serviço e jamais pensou em trabalhar no futebol. Mas seu destino estava traçado. Conseguiu emprego no Palmeiras como roupeiro, em maio de 1956, contratado por Rubens Minelli, técnico das categorias de base do Alviverde. Logo ganhou o apelido de ‘seo Juva’. Minelli veio para o América em 1963, mas ‘seo Juva’ continuou prestando serviço ao clube do Parque Antártica. Levou para São Paulo a mulher, os filhos, e ainda aumentou a prole, com os nascimentos de Fátima, Antônio Artur, o Bacurau, e a adoção de Gilda. Durante sua permanência no Palmeiras, acompanhou de perto o título paulista de 1959 e viu surgir a dupla Dudu e Ademir da Guia, precursora da imponente “Academia de Futebol”, campeã estadual de 1963.

Em 22 de março de 1965, Minelli ainda estava no América e lembrou-se do velho amigo. Transferiu o roupeiro Eurico Ribeiro para o setor das piscinas do estádio Mário Alves Mendonça e trouxe ‘seo Juva’ para integrar sua comissão técnica. Xista Rosa, sua mulher, falecida em 1991, também prestou serviços ao América durante muitos anos como lavadeira. Caprichoso, o casal cuidava do material do Vermelhinho como se fosse colocá-lo para ir à uma festa de gala. Tinha orgulho de ver o Rubro bem trajado invadir o gramado para a luta. Apesar de todo empenho em sua rouparia, ‘seo Juva’ raramente assistia aos jogos. Precisava ficar na sua salinha, ajeitando o material para o pós jogo (sabonete, toalha, chinelo, etc), além de ser responsável pelos pertences da delegação deixados no vestiário. A saída era acompanhar a maioria das partidas pelo radinho de pilha. O trampo era pesado. Remendar meias, engraxar chuteiras e tênis, enrolar 60 pares de atadura por dia, encher bola, pregar e costurar chuteiras danificadas, repor cravos, separar o material para cada jogador e colocar no seu respectivo casulo, sempre às voltas de sacolões imensos e pesados, transportados da rouparia para a lavanderia.


Curava micose e espantava azar
‘Seo Juva’ possuía alguns segredos para se sobressair na função. Com seus truques, curava até pé-de-atleta (a famosa micose). Para isso, deixava a chuteira secar ao sol até esturricar e rebitava tudo. Era tiro e queda. Católico, ele também não dispensava ações místicas como pregar espada de São Jorge na parede do vestiário para espantar mau-olhado. Contra olho gordo, lavava o vestiário com sal grosso e costumava levar os uniformes para benzer num centro em Uberaba. Desde a sua chegada ao América, em 1965, ‘seo Juva’ sempre morou na casinha sem forro de três quartos, sala, cozinha e banheiro, que havia dentro da área do estádio Mário Alves Mendonça. O maior desgosto de sua vida, segundo relato emocionado de sua filha Fátima, foi ter que desocupar o local no início de 1998, depois que a diretoria do clube vendeu o patrimônio para a Prefeitura de Rio Preto. “Na época, dirigentes do América prometeram dar uma casa para o meu pai, no bairro Cecap, mas isso nunca aconteceu”, lamenta Fátima. Juvenil Moreira praticamente ficou sem teto. Desalojado e sem respaldo da diretoria, se virou e alugou uma pequena moradia na Vila Ideal. ‘Seo Juva’ trabalhou na rouparia do América até o início dos anos 90. Depois, foi transferido para o parque aquático do estádio Mário Alves Mendonça. Aposentou-se em 2000, mas continuou prestando serviço ao clube como porteiro, no Teixeirão, até 2003. Há 10 anos, ele sofria de hérnia e lutava para controlar a taxa de diabetes. Ficou com a saúde debilitada nos últimos 12 meses e morreu na tarde de segunda-feira, vítima de infarto.

Minelli fala sobre o amigo
Responsável pela vinda do ‘seo Juva’ para o América, o amigo Rubens Minelli, de 78 anos, técnico campeão com a equipe rio-pretense da Primeira Divisão (atual A-2) de 1963, mora em São Paulo e guarda boas lembranças do principal roupeiro da história do clube. “Era um profissional espetacular, que cumpria sua função com extremo rigor e zelo, além de uma pessoa fantástica, humilde e muito correta”, diz.“Nunca participou de rodinhas com jogadores e respeitava todos com igualdade”, acrescentou. Minelli recorda que quando convidou Juvenil Moreira para trabalhar no time rio-pretense, percebeu uma certa resistência. ‘Seo Juva’ não queria deixar as divisões de base do Palmeiras para vir morar no Interior. “Foi duro convencê-lo”, informou. “Naquela época, o treinador da base já não ganhava nada, imagina o roupeiro”, argumentou.

Além da tranqüilidade interiorana, o que pesou na decisão final foi o fato de um dos filhos (Florivaldo) sofrer de asma. “A poluição e a temperatura da Capital agravavam a doença do menino, então, ele resolveu aceitar meu convite”, destaca o treinador. Rubens Minelli recebeu a notícia da morte de Juvenil Moreira pela reportagem do Diário da Região. “Quando a gente atinge uma certa idade torna-se freqüente receber a informação que uma pessoa conhecida se foi”, lamentou. Um fato chateou a família de ‘seo Juva’, terça-feira passada, dia do enterro dele. “Atuais e antigos dirigentes não mandaram uma coroa de flor”, disse Fátima, uma das filhas.


Colaboração: Rui Guimarães



TAÇA DOS INVICTOS - Foto de 1973 mostra o time do América que ficou 17 jogos sem perder. Tio Nico (massagista), Oswaldo ‘Dicão’ Iembo (auxiliar técnico), Juvenil Moreira (mordomo), Maurício ‘Risada’ Brione (massagista), Wagner, Zuza, Nelson Prandi, John Paul, Edvaldo, Paulinho, Marcão Ortolan, Wilson Francisco Alves (técnico), Issamo Iwata médico), Antônio ‘Dê’ Iembo (fisicultor), Jean, Didi, Turcão, Mazinho, Jairzão, Walter e Milton
Colaboração: Fernando Marques



ELENCO COMPLETO- Time do América de 1986. De pé, a partir da esquerda: Fernando Russo (diretor), Tio Nico, Jacintho Angelone (preparador de goleiros), Altair, Luis Fernando Gaúcho, Ricardo, Ademilson, Roberto Costa, Gilson, Daniel, Paulo Cézar Catanoce, Orlando Fumaça, Adirso Alves Ferreira (presidente), Benedito Teixeira (vice), João Avelino (técnico) e Benê Ramos (fisicultor); sentados: Juvenil Moreira, César, Fernando, Toninho, Eugênio, César Maluco, Dito Siqueira, Roberto Fonseca, Serrano, Elias e Luís Andrade; agachados: Gercino Soares da Silva, o Boca (supervisor), Pedrinho (massagista), Gil Catanoce, Izael, Neto, Márcio Florêncio, Nena, Marcus Vinicius, Emo, Xande e Manoel Fernando


Ivo Pirani - Colaboração: Francisco Rosati



CAMPEÕES - Juvenil Moreira acompanhou o filho Bacurau na final do Campeonato Dente-de-Leite e 1974, no estádio Mário Alves Mendonça. A partir da esquerda: Élcio, Cuquinha, ‘seo Juva’, Bacurau, Issamo Iwata, Celso Ribeiro, Benedicto Ambrózio, Pedro Favarini, Francisco Rosati e João de Caires


André Vinha 15/8/1997



NA CASINHA- Desde quando veio para o América, em 1965, Juvenil Moreira morou na pequena casa localizada dentro da área do estádio Mário Alves Mendonça, onde criou os filhos e alguns netos. Teve que deixar o imóvel em 1998





NA CASINHA 2 - Juva na outra entrada da casa localizada dentro da área do estádio Mário Alves Mendonça


Lézio Júnior/Editoria de Arte



SAUDADE - Homenagem do cartunista Lézio Júnior mostra o encontro de Juvenil Moreira, o Juva, e Benedito Teixeira, o Birigüi