Relacionamento
Armadilhas do desprezo
São José do Rio Preto, 3 de Junho de 2007
  Orlandeli/Editoria de Arte  

Fabiano Ferreira

Preste atenção ao seu redor. Por acaso você convive com alguma pessoa que não pensa duas vezes em desprezar os demais ou talvez você mesmo? Com certeza a resposta será positiva. O que não faltam são pessoas ao nosso redor que parecem fazer vista grossa quando passamos, que não abrem a boca para dizer um “bom-dia” e muito menos levam em consideração que se hoje não precisam de você, amanhã poderão estar na sua frente buscando ajuda. Infelizmente, muita gente ainda não percebeu que o desprezo é uma chaga social, que só destrói as relações e contribui para os problemas gerados pela baixa auto-estima. Pessoas que se julgam superiores às demais, seja pela intelectualidade ou posição financeira, se acham no direito de torcer o nariz para quem está “abaixo” delas e, o que é pior, desconsiderar que todos temos direitos e deveres, além de valores únicos.

Um dos problemas que circundam o deprezo é a confusão que se faz em relação a este comportamento. Segundo a terapeuta neurolingüística Marcelle Vecchi, de Rio Preto, o desprezo chega a ser confundido com timidez e fobia social, que nada mais são que a dificuldade excessiva de interação com outras pessoas. Mas a história não é bem essa. Desprezar os outros pode ser entendido quando a pessoa: está com seu foco muito concentrado nela mesma ou nos seus problemas; está com medo da interação por insegurança (não sabe ao certo como proceder); está numa fase muito egoísta (não se importa muito com outras pessoas); está com pavor social; ou é muito tímida e introspectiva (vive mais no seu mundo particular). “Ocorre muito de a pessoa desprezar e não saber disso, pois na verdade enxerga esse seu comportamento como uma autodefesa, principalmente nos casos da fobia social e da timidez. Elas negam esse comportamento de desprezo, pois para elas foi só um ato necessário naquele momento. Após algum tempo, podem perceber que desprezaram e se culpam internamente”, diz Marcelle.

Interagir é preciso
Em qualquer tipo de interação social o indicado é agir com transparência. A terapeuta dá uma dica de como proceder quando somos desprezados. “Devemos deixar nosso orgulho de lado, nos aproximarmos dessa pessoa e dizer: "Fulano, nesse momento percebi que você me desprezou, sei que isso pode estar acontecendo sem que você perceba, por isso resolvi falar com você às claras. Se eu puder ajudá-lo de alguma forma estou à sua disposição", sugere. Se agirmos com nosso orgulho ferido, provavelmente, a conversa terá um tom de crítica ou agressividade, e ninguém ganhará com isso. A pessoa que é desprezada e guarda tudo para ela, remoendo o que aconteceu, tem grandes chances de ser afetada negativamente na sua auto-estima porque leva para o lado de se sentir diminuída, acreditando que o problema está com ela. E pode cada vez mais evitar situações por medo da rejeição. Mas muitas vezes o problema não está com quem é desprezado e sim com quem despreza.

Sem desprezo:


:: Pratique o ato de dar importância às pessoas, lembre-se que podemos aprender com qualquer um; evite selecionar pessoas, pois todas são importantes

:: Lembre-se que os seus problemas são do mesmo tamanho dos de qualquer um, só parecem maiores porque são seus, compartilhe-os, você pode encontrar soluções que não havia pensado

:: Procure agir com transparência, mesmo que for para não interagir - "Desculpe-me, mas agora não estou com vontade de conversar, assim que eu melhorar te procuro"

:: No caso da timidez - lembre-se que todos somos do mesmo tamanho, ninguém é melhor ou pior, não tenha medo da opinião dos outros, você também tem muito a contribuir


Orlandeli/Editoria de Arte

Quem despreza os outros na verdade se ‘auto-rejeita’
O desprezo é um comportamento de muitas faces. Ele pode comprometer a imagem que os outros têm a respeito de nós, como também dificultar as relações. A psicóloga clínica Vera Márcia Paráboli Milanesi, pós-doutorada pela Universidade de São Paulo, falou ao Diário sobre este problema:

Diário da Região - O que se deve entender por desprezo? As pessoas confundem o conceito?
Vera Márcia Paráboli Milanesi - Desprezo é um sentimento de desdém, falta de estima ou de consideração pelo outro, que se manifesta por comportamentos de desvalorização e rejeição. Quem despreza não leva em consideração gostos, personalidade, necessidades e sentimentos do outro. Quem despreza não quer enxergar o outro como um ser humano com os mesmos direitos e necessidades.

Diário - O que leva uma pessoa a adotar o comportamento de desprezar os outros?
Vera Márcia - Na verdade o desprezo pelo outro revela um desequilíbrio emocional, pois a atitude saudável para todo ser humano é reconhecer o seu próprio valor e também os valores do outro com quem se relaciona. Somente esse reconhecimento possibilita o desenvolvimento de uma relação gratificante, em que há verdadeira troca e crescimento. Geralmente quem despreza tem problemas com sua auto-estima e não consegue se aceitar verdadeiramente e essa auto-rejeição acaba se transformando em rejeição pelos outros. Isso pode vir de longa data. Há situações em que a pessoa já se sentiu um dia extremamente desprezada e sofreu muito por isso. Para tentar minimizar a dor causada por esse desprezo, acabou, consciente ou inconscientemente, adotando esse comportamento com relação aos demais. Cria-se, assim, de forma inconsciente, a seguinte linha de raciocínio: “Devo desprezar antes de ser desprezado”, ou “devo desprezar para não ser desprezado”. Tudo isso pode se dar no nível inconsciente e é uma defesa contra a dor de se sentir desvalorizado. Infelizmente, esse tipo de comportamento reativo não permite que o indivíduo atinja seu verdadeiro objetivo - obter consideração e afeto do outro - e seu desprezo gera mais frieza e desconforto em suas relações atuais. Cria-se aí uma cadeia sem fim de desencontros e sofrimento psíquico.

Diário - Há pessoas que sempre desprezam, mas não percebem que agem assim? O que acontece nestes casos?
Vera Márcia - Sim, pessoas que não conseguem elaborar seus sentimentos, que não se conhecem suficientemente, podem achar que seu comportamento é absolutamente normal e saudável. Podem, inconscientemente, estar negando seu comportamento e a causa geradora do mesmo. Por exemplo: um desprezo ocorrido na infância por parte de um dos pais. Para tentar minimizar ou neutralizar esse sofrimento, busca desprezar antes de ser desprezado, mas o que encontra é, mais uma vez, a dor e a insatisfação.

Diário - Como lidar com o desprezo? Quando nos sentimos desprezados, o que fazer para que não sejamos afetados?
Vera Márcia - Quem se sente desprezado deve, em primeiro lugar, fazer uma auto-análise para ver se seu sentimento está compatível com o comportamento dos outros ou se é fruto de uma carência que precisa ser cuidada, muitas vezes com uma ajuda profissional. Se a conclusão for que a atitude está compatível com o desprezo real do outro, é necessário tentar entender que o desprezo, na verdade, demonstra uma falta de equilíbrio de quem está desprezando. Importantíssimo perceber que embora à primeira vista pareça que aquele que despreza está se valorizando excessivamente, é o inverso que está acontecendo, pois o desprezo significa falta de auto-estima, está gerando uma necessidade patológica de diminuir a importância dos outros. Quem despreza já se sentiu um dia tão pequeno e sem importância que para ir contra esse sentimento tem de provar que o outro também não é importante. Quem é desprezado deve lembrar-se, então, do velho ditado: “Quem desdenha quer comprar”, para saber que, de alguma forma, possui qualidades ou características que o outro valoriza, mas que, por medo de se sentir desvalorizado, não consegue admitir e muito menos expressar. A partir dessa compreensão, o comportamento será o mais natural possível.

Diário - Como agir com quem nos despreza?
Vera Márcia - No nível das relações humanas, devemos sempre tentar “agir” e não “reagir” aos comportamentos dos outros. Assim, nossas ações devem ser pautadas por nossos desejos e necessidades, e não devem ser nunca reações à atitude de desprezo do outro. A partir da compreensão do funcionamento mental do outro, percebendo que ele, na verdade “despreza o que quer comprar”, podemos “agir” com naturalidade e não “reagir” ao seu desprezo. Para entendermos bem a diferença entre ação e reação, podemos imaginar a seguinte situação: se eu preciso do favor de alguém e não consigo solicitá-lo por ter sentido que essa pessoa me desprezou, estou apenas reagindo ao seu comportamento. Se, ao contrário, consigo ver que o seu desprezo é um problema dele e não meu, consigo solicitar meu favor e aumentar a possibilidade de atingir meu objetivo.

Diário - Que influência o desprezo pode ter na auto-estima das pessoas, no seu poder de interação com os demais?
Vera Márcia - Todo ser humano precisa ser respeitado e valorizado como um ser único. O desprezo, portanto, vai de encontro a essa necessidade humana e fere a auto-estima. Desprezo gera desprezo: quem se sente desprezado terá uma tendência a desprezar os outros quando esse sentimento não é bem elaborado e assimilado.

Diário - Que dicas você dá para que evitemos o desprezo?
Vera Márcia - Para não agir com desprezo, a pessoa tem de, em primeiro lugar, ser capaz de reconhecer-se como um ser humano único e diferente de todos os demais. Conhecer suas qualidades e valorizá-las para poder amar-se como realmente é. Somente quando consegue se valorizar poderá também valorizar o outro como um ser único, e, embora diferente, também merecedor de consideração e respeito. Essa é a atitude saudável esperada de todo ser humano, mas infelizmente nem todos conseguem trabalhar seus sentimentos para agir assim.