Plantio
Nova técnica para eucalipto
São José do Rio Preto, 14 de Fevereiro de 2006
  Fotos: Carlos Chimba  
Sílvio de Mello exibe hidrogel: tampa de PET serve para fazer espécie de gelatina

Carlos Eduardo de Souza

Na medida em que o interesse pela silvicultura (produção de árvores florestais) avança na região de Rio Preto, os produtores rurais adotam uma nova técnica para reduzir custos operacionais com irrigação e perdas de mudas de eucaliptos plantadas para produção de madeira. De acordo com Sílvio Fernandes de Mello, da Vital Flora, o uso de hidrogel permite que a planta fique até 25 dias ser irrigação. "A umidade é liberada gradativamente para a planta", disse. O hidrogel é semelhante a uma gelatina em pó que, em contato com a água, ganha consistência e armazena água para suprir as necessidades hídricas da planta durante um período.

Segundo ele, o produto onera em R$ 0,04 o preço da muda plantada e uma tampinha de embalagem PET de refrigerante é suficiente para produzir o volume necessário para o plantio. "Tem gente que coloca mais do que deve e, algumas vezes, dá para ver que a muda é empurrada para cima", advertiu. Em um alqueire, utilizando o espaçamento 3 metros entre as ruas por 2 metros entre as linhas, é possível cultivar 4 mil eucaliptos. "Existem pessoas utilizando outros espaçamentos: 3 por 1, 2 por 2", afirmou.

O interesse pelo cultivo de eucaliptos no Noroeste paulista não é recente e vem ampliando espaço devido ao temor do chamado "apagão florestal", resultado do aumento do consumo de madeira. Em Rio Preto, uma palestra sobre plantio de eucalipto, realizada no Pesque Pague Estância Primavera, no córrego da Lagoa, reuniu, dia 3 de fevereiro, mais de 60 pessoas interessadas em obter informações sobre a atividade. "A procura por eucalipto cresceu por causa da drástica redução na oferta de outras madeiras provenientes de diversos estados brasileiros. Trata-se de árvore exótica à flora nacional, de origem australiana, que pode ser cortada e explorada sem impedimentos ambientais. É uma madeira para se plantar e para colher", afirmou Mello.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), a área plantada não acompanha o consumo, que cresce de 3 a 4% ao ano. No entanto, em 2005, houve um plantio de 650 mil hectares contra 450 mil hectares de 2004. Mello afirmou que existem pessoas interessadas em formar associações de produtores de eucaliptos e, agregando uma maior quantidade de madeira, pretende ter maior capacidade de negociação. "Independentemente disso, o produtor pode investir em eucalipto porque, quando as árvores atingirem ponto de corte, vai ter para quem vender a madeira", disse. Conta-se que o eucalipto é uma "árvore centenária de 20 anos". Isso é, permite o corte aos 20 anos de idade, período médio de exploração em diversos países do mundo. No Brasil, as florestas de eucaliptos costumam ser derrubadas bem antes, entre 10 a 12 anos, geralmente com a utilização da madeira para a indústria da construção civil e moveleira.

Um alqueire custa cerca de R$ 2,2 mil

O plantio de um alqueire de eucalipto custa em torno de R$ 2,2 mil. "Isso incluindo as mudas. Um milheiro de mudas sai por R$ 200 a R$ 250", disse Sílvio Fernandes de Mello. A variedade mais plantada é a "citriodora", que atinge porte para corte entre 5 e 7 anos de campo. O eucalipto citriodora tem alta densidade e, após tratamento, é utilizado como mourões para cercas. Outras variedades de eucalipto cultivadas na região são "grandis", "urophyla" e "camaldulensi". Os maiores inimigos da silvicultura, em especial na plantação de eucalipto, são os cupins, as formigas e a falta de boro, micronutriente que faz a planta se desenvolver verticalmente. "Esse problema é fácil de resolver. As análises de solo para micronutrientes são baratas, o volume de boro é pequeno e é aplicado ao pé da planta", afirmou.

O combate aos cupins deve ser realizado já no plantio com a aplicação de cupinicidas na cova. As formigas cortadeiras provocam sérios danos à cultura e devem ser combatidas atentamente. Nos primeiros seis meses, é necessário também o controle do capim, geralmente brachiaria. Apesar do formicida Regente ser indicado para a cana-de-açúcar, muitos produtores rurais têm adotado o produto para combater esse tipo de inseto. A muda do eucalipto vai para o campo após um período de adaptação, quando atinge aproximadamente 22 centímetros de altura. Apesar da madeira só estar pronta para corte aos cinco anos de idade, o produtor pode vender as folhas do eucalipto localizadas em galhos até dois metros de altura para empresas que fabricam essências. "As empresas fazem a poda dos galhos e pagam pelas folhas", afirmou.

Alguns produtores adotam espaçamento mais adensado e fazem cortes precoces aos três anos, para vender a madeira para a produção de energia e de escoras. O valor do metro cúblico do eucalipto oscila de acordo com a idade. O metro cúbico de árvore com cinco anos é comprado entre R$ 40 e R$ 50. Entre 10 e 12 anos, o metro cúbico de madeira pode variar entre R$ 480 a R$ 600, segundo dados da volume 8 da revista Florestar, da Secretaria de Meio Ambiente. Recomenda-se o primeiro corte aos cinco anos, reduzindo de 4 mil para 2 mil árvores em um alqueire de terra. No segundo, por volta de sete anos, deixa-se as melhores árvores com um desbaste de 500 a 600 plantas, sobrando cerca de 1,3 mil plantas com idade entre 10 a 12 anos para o último corte. "Nessa fase, cada eucalipto produz 1,3 metro cúbico, o que corresponde a 1,69 mil metros cúbicos de madeira por alqueire."


Sílvio de Mello observa raízes de muda de eucalipto: gel na dose certa

Consorciamento aumenta lucratividade
Uma das alternativas para a silvicultura é o consorciamento com culturas anuais nos dois primeiros anos e, depois, a liberação de gado, permitindo a pastagem sombreada. "O gado come o capim e aduba o solo", disse Sílvio Fernandes de Mello. No caso de uma propriedade rural, Mello sugere o plantio contínuo de eucaliptos nas áreas não dedicadas à criação do rebanho. "O produtor planta um alqueire por ano e, a partir do segundo ano, tem pastagens sombreadas." Outra tecnologia adotada em algumas florestas de eucalipto é permitir a rebrota com a colocação de uma guia para a planta. "Recomenda-se apenas uma rebrota, disse. Mello explicou que é comum os produtores plantarem uma nova muda no espaço entre os eucaliptos cortados. "Vem uma planta com melhor qualidade". Nos tocos dos eucaliptos cortados aplica-se um produto (Thordon) que provoca o apodrecimento da raiz. "Fala-se popularmente que, depois de seis meses, dá para arrancar o toco na botina", afirmou.

Planta tem muitas aplicações

Por ser uma árvore pertencente a um gênero de rápido crescimento, de fácil adaptação às mais diferentes condições de clima e solo, além de possuir uma grande diversidade de espécies com diferentes características físicas e mecânicas, o eucalipto apresenta grande potencial para uso em produtos sólidos de madeira. O eucalipto foi introduzido no Brasil no século 19, inicialmente plantado somente para fins paisagísticos, pelo seu extraordinário desenvolvimento como quebra-vento, ou por supostas propriedades sanitárias. Aos poucos, o eucalipto foi sendo adotado como espécie alternativa para o suprimento de madeira, principalmente como combustível nos fornos de lenha e, posteriormente, como dormentes em estradas de ferro.

Atualmente, o Brasil tem a maior área plantada de eucalipto do mundo, cerca de 5,5 milhões de hectares, utilizados em sua maioria na produção de celulose devido ao curto ciclo de produção e alta produtividade. Importante matéria-prima para a produção de carvão para siderúrgicas, dele também se obtém tecidos sintéticos e óleos para perfumes, fármacos, produtos de limpeza e alimentos. Porém, o uso de sua madeira para produção de móveis ainda é restrito. Com o objetivo de melhor aproveitar o potencial do eucalipto dentro do segmento moveleiro, a docente Adriana Nolasco, do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), juntamente com sua orientada de pós-graduação, Camila Doubek, vêm desenvolvendo estudos com três espécies, grandis, urophyla, bastante comuns na região de Rio Preto.

Os ensaios em andamento se referem às propriedades físicas, mecânicas, usinabilidade e acabamento da madeira. "As análises visam fornecer dados que possibilitem avaliar o potencial de uso dessas espécies pela indústria moveleira", disse a professora. Outra importante vantagem se refere à possibilidade de substituição de espécies nativas, que levam mais de 50 anos para atingir idade de corte, enquanto o eucalipto pode ser colhido para produção de madeira serrada a partir dos 12 anos. "O uso de eucalipto é uma tendência, devido aos problemas de abastecimento e do custo da madeira nativa", afirmou Camila. Apesar de existir muitos trabalhos sobre as características físicas e mecânicas do eucalipto, poucos tratam de outros aspectos, como a usinabilidade e o acabamento voltados especificamente à produção de móveis. "Como o intuito é saber quais são as melhores espécies para esse fim, a experiência tem avaliado árvores com mesma idade, 18 anos. Também estamos avaliando aspectos estéticos, como a variedade de cor e desenhos da madeira", afirmou Camila.