Choque humano
Neuralgia do nervo trigêmeo provoca dores insuportáveis
São José do Rio Preto, 9 de Novembro de 2005
  Lézio Júnior/Editoria de Arte  

Fabiano Ferreira

Qualificar uma dor como leve, média ou aguda pode ser algo subjetivo, se levado em conta que cada pessoa sente de um modo. Mas a neuralgia do trigêmeo (o maior nervo da face) é considerada pela medicina como uma das dores mais terríveis já registradas. A “fisgada” que a vítima sente no momento da dor é capaz de paralisar e provocar uma dor insuportável. A boa notícia é que o problema tem tratamento, seja com medicamentos, para aliviar a dor, ou mesmo com cirurgias, que prometem eliminar de vez a doença. A neuralgia do trigêmeo, ou nevralgia, provoca uma dor muito forte, que ocorre num lado do rosto, dura alguns segundos e desaparece. “O problema é que ela geralmente volta com grande intensidade, em intervalos de tempo variáveis”, informa a fisioterapeuta Rosiley Cosenza Dourado. A neuralgia do trigêmeo se distribui por três áreas: a região frontal, que toma a órbita ocular e parte do nariz, a região malar, que se estende até a asa do nariz e parte do lábio superior, e a região temporal, que passa pelo lado do ouvido e acompanha a mandíbula ou maxilar inferior.

O nervo do trigêmeo, formado por um par de nervos cranianos, recebe esse nome porque tem o ramo oftálmico, o ramo maxilar (acompanha o maxilar superior) e o ramo mandibular (acompanha a mandíbula ou maxilar inferior). Como vários outros nervos da face, é um nervo sensitivo, que controla as sensações que se espalham pelo rosto. “Nossos nervos são encapados pela bainha de mielina. Essa camada que envolve o nervo é fundamental para que ocorra a condução do estímulo de forma normal. Com a neuralgia, acredita-se que a bainha de mielina que envolve os nervos se perca com o passar do tempo, e depois de perdê-la sofre descargas elétricas. É um processo degenerativo”, diz a fisioterapeuta. As vítimas da neuralgia descrevem a dor como um choque, semelhante a uma fisgada. Ocorre uma pontada num dos três territórios da face por onde passa o nervo trigêmeo.

Causas
Segundo o neurologista Waldir Antonio Tognola, da Faculdade de Medicina de RioPreto (Famerp), felizmente, a doença não é tão comum, mas atinge pessoas com idade mais avançada, entre 70 e 80 anos. Suas causas são pouco definidas, o que não permite um controle preventivo eficaz. Segundo Rosiley, apesar de já ter sido descrita antes de Cristo, a neuralgia do trigêmeo ainda provoca polêmica. Como é mais freqüente nos idosos, acredita-se que a bainha de mielina que envolve os nervos se perca ao longo dos anos. Mesmo a causa da neuralgia essencial do nervo trigêmeo não sendo conhecida, sabe-se que algumas situações podem provocar a dor. Por exemplo: tumores benignos, meningiomas, neurinomas do nervo trigêmeo são causas comuns de neuralgia trigeminal. Malformação dos vasos localizados na região posterior do encéfalo também pode provocar sintomas similares. Nos casos em que existe um fator orgânico provocador, geralmente o exame neurológico revela alterações, pois além da referência à dor paroxicística, a dor em choque, existe uma sensação de dormência, com formigamento na face. Já nos 95% dos pacientes com neuralgia sem causa determinada, o exame neurológico é absolutamente normal.

>> Entenda a doença


O que é:
:: A neuralgia do trigêmeo é uma disfunção do nervo trigêmeo, que transmite as informações da sensibilidade da face ao cérebro

Como se manifesta:
:: A disfunção do nervo trigêmeo produz episódios de dor intensa e lancinante, que duram de segundos a minutos. Adultos de qualquer idade podem ser afetados pela neuralgia do trigêmeo, embora ela seja mais comum em idosos

Sintomas :
:: A dor pode ocorrer espontaneamente, mas geralmente é desencadeada quando um ponto particular é tocado ou por uma atividade simples como escovar os dentes ou mastigar

Diagnóstico :
:: Não há exames específicos para identificar a neuralgia do trigêmeo. O diagnóstico é feito pelo médico, que descarta outras causas possíveis de dor facial como doenças da mandíbula, dos dentes ou dos seios da face

Tratamento:
:: Os analgésicos não são eficazes. Em geral, usam-se substâncias como a carbamazepina e antidepressivos. Alguns casos exigem tratamento cirúrgico

Emoções negativas interferem nas crises
Em geral, mais de 60% dos pacientes que apresentam neuralgia do trigêmeo estão acima dos 60 anos de idade. Trata-se, portanto, de uma doença que prevalece na Terceira Idade ou em idades mais avançadas. O fator emocional interfere nas crises da neuralgia. “Não que a emoção simule o efeito doloroso, mas a pessoa se refere a crises mais freqüentes quando atravessa fases complicadas, de natureza amorosa, financeira ou profissional”, considera a fisioterapeuta Rosiley Cosenza. Mudanças de temperatura são freqüentemente mencionadas como gatilho das crises, embora isso não tenha sido comprovado. Algumas pessoas reclamam mais das crises no frio e outras, quando vão à praia, talvez por causa do aumento da pressão.

Segundo o neurologista Waldir Antonio Tognola, não existe prevenção para a neuralgia. O importante é que, aos primeiros sintomas, o paciente procure o médico e se submeta a um exame clínico para comprovar ou não a existência da doença. De acordo com o médico, o tratamento da neuralgia é feito por meio de medicamentos como os que são produzidos à base de carbamazepina (não adianta tomar analgésico, pois ele não tem efeito sobre essa dor). Em alguns casos, o baclofeno e determinados antidepressivos podem ser eficazes. Há situações em que se indica cirurgia para cortar o nervo que provoca a dor, rompendo suas fibras. Pode-se fazer um teste com a injeção de álcool no nervo com a finalidade de bloquear a sua função temporariamente. Se o procedimento aliviar a dor, o nervo pode ser seccionado ou destruído permanentemente pela injeção de uma substância adequada. Feitos com freqüência, esses procedimentos produzem desconforto no rosto e devem ser considerados como último recurso.

Outra opção de tratamento é a fisioterapia, que utiliza a eletroterapia. Um método usado é o “Tens”, é um pequeno aparelho que envia impulsos elétricos para certas partes do corpo para bloquear os sinais de dor. Segundo a fisioterapeuta Rosiley Cosenza, dois eletrodos são colocados na parte do corpo onde a pessoa está sentindo a dor. A corrente elétrica que é produzida é muito suave, mas consegue impedir as mensagens de dor de serem transmitidas ao cérebro. “O alívio da dor pode durar por algumas horas. Algumas pessoas podem usar um aparelho pequeno e portátil preso a um cinto para obter alívio mais contínuo, sob a supervisão de um fisioterapeuta”, diz Rosiley.

Saiba mais
As mulheres são as maiores vítimas da neuralgia do trigêmo e não há uma explicação plausível. São raros os casos em pessoas jovens.
Pesquisas indicam que a maior incidência da doença ocorre em pessoas com hipertensão ou esclerose múltipla. Anualmente, são registrados cerca de cinco casos em cada 100 mil pessoas.

Serviço:
- Rosiley Cosenza Dourado, fisioterapeuta, fone (17) 3235-4203
- Waldir Antonio Tongola, neurologista, fone (17) 3227-6566