Operação Cevada
Empresário da região é preso por sonegação
São José do Rio Preto, 17 de Junho de 2005
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Wálter Faria foi preso pela Polícia Federal, durante a ´Operação Cevada`

Júlio Cezar Garcia

05:36 - O empresário Wálter Faria, de Fernandópolis, que até 1998 foi dono da maior rede de distribuição de cervejas na região de Rio Preto e, nos anos seguintes, comprou a cervejaria Petrópolis, no Rio de Janeiro, e a Crystal, em Boituva, foi preso anteontem pela Polícia Federal. Faria foi preso junto com os diretores da Schincariol, a segunda maior cervejaria do Brasil, e outras 60 pessoas de São Paulo e mais 12 Estados. É a maior investida contra a sonegação de impostos já desencadeada no País. Chamada de “Operação Cevada”, a ação acusa os suspeitos de sonegar R$ 1 bilhão nos últimos cinco anos em impostos federais, como Imposto de Renda e Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), e estaduais, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

A PF debita na conta do grupo a prática de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, evasão de divisas e corrupção de servidores públicos. Wálter Faria esteve sempre muito próximo a políticos e autoridades na região. Chegou a ser destaque na revista O Tempo, de Fernandópolis, na edição dedicada ao Deinter-5, o Departamento de Polícia Judiciária do Interior, de Rio Preto, em junho de 2001. Na época, Faria era o presidente da Expo-Fernandópolis. “Foi necessário que o presidente e empresário Wálter Faria pusesse todo seu prestígio junto a amigos para que a normalidade imperasse” (era época do “apagão”, e os logradouros públicos tinham de se submeter a uma drástica economia de energia). A amizade de Faria com o então juiz de direito de Rio Preto, José Isaac Birer, por exemplo, acabaria dando dores de cabeça ao magistrado. Birer foi um dos investigados pela CPI do Narcotráfico, sob suspeita de favorecimento ao irmão de Wálter Faria, o fazendeiro e traficante de cocaína João Farias, atualmente preso no Centro de Detenção Provisória de Rio Preto.

Além dessa investigação, o Tribunal de Justiça também apurou os negócios de Birer com a família Faria, que envolviam distribuidoras de bebidas. Após dois anos de investigações, o desembargador Sérgio Nigro Conceição, presidente do TJ de São Paulo, afastou o juiz Birer do cargo, mas o manteve nos quadros da magistratura estadual. Em vista da decisão do TJ, em agosto de 2003 então o procurador-geral de Justiça, Luiz Antonio Guimarães Marrey, iniciou “na defesa do interesse público”, ação civil pública contra o juiz Birer. O objetivo da ação é pedir ao TJ que “imponha ao réu a perda do cargo ou função pública, a recomposição integral do dano que causou ao patrimônio público, mesmo os de natureza moral, à administração pública, à coletividade e ao Poder Judiciário”. A ação corre sobre segredo de Justiça na 7ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo.

O empresário Wálter Faria está preso na Superintendência Regional da Polícia Federal de São Paulo, na rua Hugo Dantola, 95, Lapa de Baixo. A assessoria de comunicação da PF disse ontem ao Diário que os empresários ficarão na unidade por tempo ainda não determinado, que pode chegar a dez dias, caso a Justiça acate o pedido de prisão temporária pedida pela PF. Os empresários estão em celas especiais, de 30 metros quadrados, com banheiro e colchonetes. São dois presos por cela, segundo a polícia. Eles recebem ali café da manhã, almoço e jantar. Na cervejaria Petrópolis, de Wálter Faria, a informação foi que não haverá manifestação da empresa. A pena para formação de quadrilha varia de um a três anos. Para corrupção ativa, é de um a oito anos. No caso de sonegação, segundo o procurador federal Eleovan Mascarenhas, da Procuradoria Federal de Rio Preto, na maioria dos casos, a pena fica entre 2 e 5 anos.

De vendedor de ovos a cervejeiro
De origem humilde, a família Faria montou, ao longo de duas décadas, um patrimônio invejável. O empresário do ramo cervejeiro, Wálter Faria, tinha uma perua Kombi velha e com ela vendia ovos nas ruas de Fernandópolis nos anos 80. Já na década de 90, quando o algodão atingiu seu período de ouro no Noroeste paulista, Faria comprou uma algodoeira. Cobertura da imprensa regional, inclusive do Diário, chegou a registrar o congestionamento causado pelos caminhões que entregavam o produto na indústria de Faria. Por incapacidade de processar todo o algodão que recebia, ele espalhou os fardos por uma área de três alqueires. Era um mar de algodão à espera de entrar nas máquinas. Naquela safra, Faria processou 20 milhões de arrobas, um resultado invejável para as indústrias da região.

Ainda na década de 90, desfez-se da algodoeira e partiu para o ramo de distribuição de bebidas. Tornou-se o maior distribuidor regional da marca Schincariol. No final da década, em 98, desligou-se da Schincariol e comprou a cervejaria Petrópolis. No ano seguinte, adquiriu a Crystal, uma cervejaria artesanal com sede em Boituva, a pouco mais de 100 quilômetros de São Paulo. Em poucos meses, Faria transformou a cerveja Crystal em um fenômeno de vendas no Noroeste do Estado, batendo as marcas líderes na maioria dos bairros periféricos de Rio Preto. Os produtos de suas duas marcas e três fábricas respondiam, no mês passado, por 5,17% do mercado de cerveja no País. Há dois anos, eram 2,9%. Em 2004, as empresas tinham 1,3 mil empregados e um faturamento de R$ 169 milhões.