Bom negócio
China desperta interesse do Brasil
São José do Rio Preto, 23 de Maio de 2004
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China cria vínculos de negócios com a região de Rio Preto

Carlos Eduardo de Souza

Os ideogramas ao lado querem dizer “De olho na China”, um país de cultura e tradição milenares, que se abriu à economia ocidental e tornou-se nos últimos cinco anos o mais novo e cobiçado mercado mundial, com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 7% e 10% há dez anos. Com uma população de 1,3 bilhão de habitantes, a China desperta o interesse no empresariado do Brasil. Em grandes centros, a procura por cursos de mandarim, a língua oficial, e maiores informações sobre a nação de dimensões continentais cresce na mesma proporção que as possibilidades de negócios. Em Rio Preto, não é diferente. Uma turma, ainda com poucos alunos, começou a aprender mandarim na semana passada. No ano passado, o Brasil exportou US$ 8 bilhões para os chineses, volume considerado modesto diante das possibilidades. Mesmo assim, o país asiático é hoje a segundo maior parceiro comercial do Brasil. Dispõe de reservas cambiais da ordem de US$ 550 bilhões e exportou no ano passado US$ 800 bilhões.

Parte desses recursos pode vir para o Brasil na forma de investimentos em infra-estrutura rodoviária, ferroviária e portuária, um calcanhar-de-aquiles do setor produtivo brasileiro e que influencia no chamado Custo Brasil. A relação de Rio Preto com a China é mais forte do que se imagina. Estima-se que morem pelo menos dois mil chineses ou descendentes em Rio Preto e o primeiro escritório brasileiro instalado naquele país é do advogado rio-pretense Durval Noronha Goyos. Na região começam a instalar-se escritórios de exportação e importação que vislumbram aumento das transações comerciais a partir da visita do presidente Luís Inácio Lula da Silva e uma delegação de 412 empresários.

A expectativa é de que a visita possibilite, por exemplo, a assinatura de um acordo sanitário que permita a exportação direta de proteínas animais (carne bovina, suína e de frango) para a China continental. A carne beneficiada em alguns frigoríficos da região já é consumida pela população chinesa há vários anos, mas, oficialmente, a exportação é feita para Hong Kong ou por intermediários de outros países que têm acesso ao mercado chinês. O potencial de consumo da China é tão grande que, mesmo indiretamente, já beneficia os produtores rurais da região. Um exemplo disso é a heveicultura (produção de látex). A China comunista com características capitalistas adotou um dos principais símbolos de ascensão e status ocidental: o automóvel.

Isso, junto com outros fatores, provocou elevação do preço da borracha no mercado internacional e permite que os produtores de látex recebam melhor remuneração. Além disso, o volume de borracha natural consumida pelo setor sino-automobilístico força ampliação da área plantada para que o Brasil não fique dependente das importações e dos humores das cotações internacionais. Na região, alguns frigoríficos já perderam funcionários para empresários chineses que atuam no interior paulista na intermediação de exportações de carne. A China bate à porta da região.


Carlos Chimba
Flávio Scorsi, da Agromass: Rio Preto tem localização estratégica

Empresa leva produtos da região à Ásia
A Agromass Brasil Exportação e Importação atua na região de Rio Preto há cinco meses e representa um grupo de empresas chinesas em toda a América Latina. “Na América Latina, o país escolhido foi o Brasil e, no Brasil, nós fomos os escolhidos. Isso por causa da localização estratégica de Rio Preto e pelo tipo de produtos que os chineses desejam”, afirmou Flávio Scorsi, sócio da Agromass Brasil. Segundo afirmou, ele e o sócio Jony Xiao respondem pela exportação de US$ 6 milhões mensais para a China. Atualmente, os negócios concentram-se na exportação de madeira, carnes e pedras ornamentais. “Exportamos carne bovina, de porco e de frango adquirida na região”, disse. Somente em proteína animal a empresa exporta US$ 1,5 milhão por mês. A empresa começou a exportação de madeira e páletes com a remessa de três contêineres, cerca de 70 m3. “Da região são exportados páletes da madeireira Santa Cruz, de Potirendaba”, afirmou.

O gerente de exportações do Frigorífico Mozaquatro, em Fernandópolis, Agenor Matheos Júnior, afirmou que desde 1996 a empresa exporta carne e miúdos bovinos para Hong Kong. Segundo ele, existe expectativa de que a visita de Lula possibilite a exportação direta de carne para a China continental. “Nós exportamos para Hong Kong cerca de 50 toneladas mensais de carne e 50 toneladas de miúdos”. Em entrevista concedida recentemente ao Diário, o diretor industrial e comercial do Frango Sertanejo, Takashi Mário Okada, também revelou a importância de um acordo que estabeleça regras de validação sanitária entre os dois países para que a produção de carne de frango do frigorífico de Guapiaçu possa ter acesso direto ao mercado da China. Matheos Júnior afirmou que o potencial de exportação de carne da região para a China é muito grande. “Tem chineses comprando carne e fazendo a exportação”, comentou.

Rodrigo Galvão de Souza Faleiros, da Oxford, empresa norte-americana que presta serviços para empresas no setor de exportação e que faz consultoria para a Câmara de Comércio Norte-Americana afirmou que deverá ser aberto na China um Brazilian Business Bureau, ou seja, um escritório para a realização de negócios com empresários chineses, a exemplo do que já existe nos Estados Unidos. Rodrigo Faleiros responde pelas praças de Franca, Ribeirão e Rio Preto com a missão de promover a exportação de produtos das três regiões para a China. Ele também destacou como um dos pontos importantes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a validação de acordos sanitários que facilitem o ingresso de carne brasileira naquele país.

A despachante aduaneira Yvanna Agostini afirmou que a possibilidade de exportações de produtos da região para China são concretas. “É sempre bom saber que nosso governante está procurando tomar medidas práticas que auxiliem a economia do país e é unanimidade que a recuperação da economia tem seu ponto forte nas exportações”, afirmou. Yvanna, no entanto, adverte que é perigoso que a sociedade veja uma viagem comercial como solução dos problemas de nossa economia. Para ela, o processo de aproximação com a China, já iniciado há anos por algumas empresas brasileiras, não é um processo de curto prazo. “A viagem é parte de um processo e o objetivo é que ela traga estímulos aos dois lados. O mercado chinês compra tudo e é enorme, mas também, como qualquer outro, exige adequação e dedicação do empresário brasileiro”, disse.
Pierre Duarte
Flávio Karniek Nahas: três horários para o curso de mandarim

Academia ensina mandarim
Flávio Karniek Nahas, professor de artes marciais da Academia Sino-Brasileira de Kung Fu, tem ascendência árabe e é admirador da cultura chinesa. Ele adverte que é conveniente aos empresários da região que pretendem exportar para a China aprender um pouco sobre a cultura daquele povo. Segundo o professor, antes de fazer negócios, os chineses criam uma relação de confiança com as pessoas. “Eles primeiro vão caminhar com você pela rua, conhecer você um pouco melhor, como acontece com os negociantes de gado da região que, antes de falar em comprar gado, encostam na cerca, descascam uma mixirica e, só depois, falam de negócios”, comentou. Flávio é responsável pela organização de um curso que funcionará em três horários para ensinar o mandarim, língua oficial da China. A Academia Sino-Brasileira de Kung Fu tornou-se uma espécie de embaixada chinesa não-oficial em Rio Preto e funciona como um divulgador da cultura chinesa. “Não temos só artes marciais. Também tratamos da medicina chinesa, de acupuntura, da cultura”, concluiu.
Elisandro Ascari
Advogado Durval Noronha Goyos é um pioneiro na China

“Cheguei antes da Varig”
O advogado Durval Noronha Goyos é responsável pela instalação do primeiro escritório brasileiro na China. “Cheguei antes da Varig, da Petrobrás e do Banco do Brasil”, comenta. Com escritórios de advocacia instalados em 12 capitais brasileiras e em Buenos Aires, Lisboa, Londres, Los Angeles e Miami, Goyos foi contratado pelo governo chinês para acompanhar algumas pendências jurídicas internacionais. A aproximação com o governo e empresas chineses fez com que Goyos abrisse, em 2001, um escritório em Xangai. Atualmente, ele mantém equipe com nove advogados chineses ou de ascendência chinesa. Em dezembro de 2001, o governo chinês apresentou programa para reduzir pela metade a participação da agropecuária no produto interno bruto do país. Essa iniciativa reforçou o interesse do advogado na China e permitiu enxergar o potencial para o desenvolvimento de relações internacionais.

Goyos aprendeu a falar mandarim, idioma oficial da China, mas através de letras latinas, conhecido como método pinyin. Também é autor de um livro sobre as perspectivas do mercado e da abertura da economia chinesa ao mundo. “O livro vendeu 50 exemplares em 2001. Mas em 2003 e 2004 esgotou nas livrarias com a venda de 5.950 exemplares”, disse. O advogado afirmou que na região existem diversos produtos que podem ser comercializados para o mercado chinês, além da carne bovina, de frango e de porco. “Há potencial grande para produtos brasileiros da região de Rio Preto como suco concentrado de laranja, própolis que é visto como um medicamento na China e custa muito mais caro do que no Brasil”, disse. Apesar da distância geográfica e as diferenças entre os idiomas, ele acredita que o relacionamento comercial entre os dois países não deve ser difícil.

Os números chineses:


:: Área do território = 9,6 milhões de quilômetros quadrados
:: População = 1,3 bilhão de habitantes
:: Taxa de crescimento do PIB na última década = 9% ao ano
:: PIB atingido em 2003 = US$ 1,5 trilhão
:: Reservas cambiais em 2003 = US$ 403 bilhões
:: Volume de investimentos externos em 2003 = cerca de US$ 60 bilhões
:: Taxa de crescimento real de consumo de varejo em 2003 = 9,2%

Por setor:

:: Veículos = 68,5%
:: Equipamentos de telecomunicações = 70%
:: Mobiliário = 28,2%
:: Equipamentos de áudio e vídeo = 18,3%