Submundo
Prostituição está nas estradas da região
São José do Rio Preto, 11 de Novembro de 2003
  José Luiz Lançoni  
A.C.F. espera clientes debaixo do viaduto da rodovia SP-461

José Luiz Lançoni

A prostituição ganhou uma nova modalidade na microrregião de Votuporanga. Em plena rodovia, mulheres se oferecem para os viajantes a preços que variam de R$ 5 a R$ 30. O Ministério Público determinou a abertura de um inquérito policial para apurar a suposta participação de menores nesses programas. São 20 garotas que praticam esse tipo de prostituição. Elas se concentram principalmente na rodovia Euclides da Cunha (SP-320). O “ponto” é extenso: vai de Bálsamo a Santa Fé do Sul, já que, após a relação sexual, as prostitutas são levadas freqüentemente até outro ponto da rodovia, onde recebem o dinheiro e são dispensadas. As garotas fazem um rodízio de cidades. Vão de carona da cidade em que moram para outra. É uma forma de não ser reconhecidas por parentes ou amigos. Ficam às margens da SP-320, nos trevos de acesso ou debaixo de viadutos nos entroncamentos com outras estradas.

A prostituição na região de Rio Preto não se limita às estradas. Anteontem, uma reportagem do Diário revelou como funciona o aliciamento de prostitutas e o tráfico de drogas praticado por elas na rodoviária de Rio Preto. Uma das “prostitutas da estrada” é M.A.D. Aos 18 anos, ela abandonou os estudos para vender o corpo nas rodovias. Diz que essa foi a sua única opção depois de esgotar a procura por empregos na cidade em que mora, que ela prefere não dizer qual é para evitar a sua identificação. Com o dinheiro que consegue nos programas, ajuda no sustento da família. Seu ponto é sob um viaduto na rodovia Péricles Belini (SP-461). Hoje, não pensa em deixar a atividade. “Não vou lavar banheiro para ganhar R$ 150 por mês”, diz. M.A.D. consegue em média três clientes diariamente, o que garante um rendimento de cerca de R$ 80 ao final de um dia de trabalho. O valor cobrado depende da duração do programa e dos pedidos do cliente.

Pelo dinheiro, as “prostitutas da estrada” ignoram o preconceito da sociedade e o risco de contágio de doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids. B.A.S., 23, divide o ponto com duas amigas também debaixo de um viaduto na SP-461. Apesar da concorrência, diz que são companheiras. A garota não esconde a preocupação de ser vítima de violência. Ela conta que, ao retornar de um programa, quase foi atropelada pelo carro do cliente, que fugiu sem pagar a despesa. “Pelo menos o calote me ensinou a exigir o pagamento antecipado”, diz. A.C.F., 27, prefere que os programas sejam feitos em motéis, mas diz que até já subiu em garupa de bicicleta para fazer sexo em locais afastados da rodovia. Quando o cliente pechincha para não ter de pagar um quarto, ela aceita fazer sexo dentro do veículo, em estradas rurais ou canaviais da região. As “prostitutas da estrada” preocupam as autoridades de Jales, Fernandópolis e Votuporanga. Há suspeitas de que adolescentes com idades entre 15 e 17 anos estejam se prostituindo junto com as mulheres.

Em Votuporanga, o Ministério Público determinou a abertura de inquérito policial para apurar as suspeitas. O promotor que atua no caso, José Vieira da Costa Neto, 40, diz que orienta os donos de motéis sobre a proibição de adolescentes nas dependências. A fiscalização é feita por voluntários da Vara da Infância e da Juventude. Os artigos 228 e 229 do Código Penal dão penas de dois a cinco anos de prisão a pessoas que praticam ou induzem outras à prostituição. Na prática, a lei vale tanto para os clientes quanto para os donos de prostíbulos e outros estabelecimentos do gênero.

Cliente tem perfil variado
O perfil dos homens que se relacionam sexualmente com garotas de programa nas rodovias é variado. Eles pertencem a diversas faixas de renda. São operários, caminhoneiros, viajantes e até empresários. Uma das meninas que trabalham em Fernandópolis atendeu a um empresário local que tinha uma fantasia: que ela praticasse sexo oral nele, enquanto ele dirigia o carro pela rodovia até Votuporanga. A psicóloga de crianças e adolescentes Valéria Marques, 31 anos, diz que comportamento semelhante ao do empresário pode ser atribuído a crises no relacionamento conjugal. Além disso, Valéria diz que outro motivo é a busca do homem por aventuras sexuais fora do casamento. Do outro lado, o dinheiro é o que seduz as garotas. A psicóloga cita o comportamento de uma jovem que namora um rapaz, trabalha meio período como babá e durante o tempo de folga se prostitui às margens da rodovia.

Valéria atua no programa Sentinela, em Fernandópolis. Além do amparo a vítimas de abusos sexuais dentro e fora de casa, ela e a assistente social Rosimar de Paiva, 22, desenvolvem um trabalho preventivo com 12 “prostitutas da estrada”. As profissionais acompanham o dia-a-dia das garotas e dão a elas orientações sobre como combater doenças relacionadas ao sexo. Quatro adolescentes e suas famílias também são atendidas pelas profissionais. A psicóloga considera a receptividade das ações positiva. De acordo com ela, as garotas utilizam preservativos. Mas Valéria revela um dado grave: algumas usam o mesmo preservativo feminino até quatro vezes. Ou seja, os homens que as procuram para sexo podem ser contaminados por vírus de doenças como a Aids.

Pontos preferidos:

:: Em Jales, no cruzamento da rodovia Euclides da Cunha (SP-320) com a rodovia Eliezer Montenegro Magalhães (SP-463), no acesso a Araçatuba

:: Em Fernandópolis são encontradas nos dois pontilhões do trecho da SP-320 com pistas rebaixadas da área urbana

:: Em Votuporanga, as garotas ficam debaixo do viaduto da rodovia Péricles Belini (SP-461), que vai de Cardoso a Nhandeara. O lado superior, por onde passa a SP-320, é outra opção

Fonte - Reportagem

Mulher é presa por desacato
A prostituta E.M.D., 30 anos, foi presa em flagrante ontem à tarde, em Rio Preto, suspeita de desacatar um policial militar na rodoviária da cidade, onde faz ponto diariamente. O policial G.F.S, 61, teria sido ofendido verbalmente pela prostituta após receber uma denúncia e tentar impedir que ela forçasse um usuário da rodoviária a fazer um programa. A suspeita não teria gostado da interferência e teria jogado um frasco de catchup do policial, manchando seu uniforme. Ela foi levada para o 1º DP, onde foi autuada em flagrante. E.M.D. não tem antecedentes criminais, mas foi levada para a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) porque não tinha R$ 150 para pagar a fiança arbitrada pela polícia. Se for condenada, pode pegar pena de seis meses e dois anos de detenção.

Ontem, um dia depois da denúncia feita pelo Diário sobre a atuação de pelo menos 15 prostitutas nas proximidades da rodoviária de Rio Preto, apenas o casal de aliciadores Pelé e Cristina não foram vistos no local. As mulheres continuaram a circular normalmente, mesmo com a presença de policiais militares e fiscais da Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb). Caso seja constatado o aliciamento da prostituição pelo casal, os dois podem pegar penas que variam entre dois e oito anos de prisão, se o crime for cometido com violência.