Exportação
Indústria busca novos mercados no exterior
São José do Rio Preto, 24 de Junho de 2003
  Renata Fernandes  
Funcionário da Eadi movimenta parte da carga enviada à Vitrine do Brasil

Jaqueline Silva

Empresas lançam ofensiva para abrir novos mercados consumidores no exterior com o envio de diversos produtos fabricados na região. Refrigerantes, doces caseiros, carne seca, raques e frutas são alguns artigos que estão chegando à África, ao Oriente Médio e ao Japão. O trader Tarek Sarout, de Rio Preto, enviou na última semana, para os Emirados Árabes uma remessa de 200 caixas do guaraná Poty, de Potirendaba, em embalagens pet de 250 mililitros (ml) e em latas de 350 ml. “O momento é muito bom. O Oriente vive uma onda de antiamericanismo. Os produtos dos Estados Unidos estão sendo rejeitados. Abriu-se um espaço para os nossos produtos”, afirma Sarout. O negócio fechado com um empresário árabe vai colocar as bebidas região em pontos estratégicos para testar a aceitação. Junto com a carga de refrigerantes Poty, está sendo enviada também uma bebida energética, fabricada em São Paulo.

O trader negocia também o fornecimento do xarope do guaraná para ser utilizado por uma indústria de refrigerantes na Arábia Saudita. “Queremos chegar num ponto de concorrência com os refrigerantes norte-americanos. É um mercado com muito dinheiro e eles (os consumidores) gostam do sabor do nosso guaraná”, afirma Sarout. Com um mercado consumidor expressivo de 280 milhões de habitantes, o trabalho de divulgação dos produtos regionais por Sarout começou em 2000. Ele participou de várias feiras no Irã, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Jordânia, além do Encontro do Mundo Árabe, no Rio de Janeiro, realizado em setembro de 2001. “Trabalhamos muito e os efeitos começam a aparecer. Comparo a sensação do nascimento do primeiro filho, do primeiro namoro. Estou otimista”, diz. A indústria de refrigerantes Arco-Íris, de Rio Preto, também aposta em novos mercados. Uma amostra do seu guaraná Cotuba está sendo enviada para a Angola, na África, por meio de uma parceria com um exportador. A empresa exporta, há cinco anos, refrigerantes de Limão, Laranja e Cotuba em embalagens de 2 litros e em latas de 350 ml para o Japão.

A empresa vem aumentando o seu desempenho de exportação. Em 2002, enviou 19 contêineres, o mesmo volume registrado somente nos primeiros meses deste ano. “Os refrigerantes são destinados aos dekasseguis (descendentes de japoneses que vão trabalhar no Japão). O sabor da Cotuba é insubstituível e toca na saudade que estas pessoas sentem pelo nosso País”, diz o diretor da Arco-Íris Ademar Takamitsu Watanabe. Os produtos da empresa chegam a oito províncias japonesas: Tóquio, Hiroshima, Nara, Toiama, Kyoto, Saitama, Kanagawa, Chicuka, Nagano, Aichi e Gifer. “Destinar o nosso produto para outros países significa ter um certificado de qualidade”, afirma Watanabe.

Vitrine do Brasil
Outras oito empresas da região enviaram, por meio da Estação Aduaneira do Interior (Eadi) de Rio Preto, produtos de para a Vitrine do Brasil, instalada em um shopping em Bruxelas, na Bélgica. Serão expostos para divulgação doces caseiros de mamão, goiaba, cidra e banana de Schimidt; carne seca do frigorífico BF, de Barretos; goiabada da indústria Val, de Vista Alegre do Alto; guaraná em pó da Bionatus, de Rio Preto; paçoca da Kodilar; cachaça Holy (de Icem); raques da empresa Bechara (de Tanabi), e palmito pupunha em conserva. “A região possui concentração de matéria-prima. A variedade de frutas é forte e pode incrementar os negócios com o mercado internacional”, afirma o diretor da Eadi de Rio Preto, Vivaldo Mason Filho.

Frutas
A inversão do calendário agrícola permite colocar as frutas em períodos em que outras regiões brasileiras e países produtores passam por entressafra. Três toneladas da uva centenial (sem sementes), produzidas na região de Jales, foram enviadas para Holanda com finalidade de suprir as vendas que seriam feitas por produtores do Nordeste. “Em maio, ocorreram as maiores chuvas dos últimos 30 anos no Nordeste e as uva soltaram dos cachos. Os negócios com a exportação foram prejudicados. O pessoal começou a procurar as uvas de Jales para vender lá fora e também importadores de outros países”, explica Mason Filho. Manga, goiaba, limão, cogumelos do sol e maracujá são outras culturas com potencial exportador para atender mercados internacionais aproveitando brechas do calendário agrícola de outros países exportadores. “O clima na região é favorável e a nossa produção não coincide com outras regiões produtoras. É uma oportunidade de negócio”, afirma Mason Filho.

Compradores vêm negociar têxteis
A falta de disposição de empresas brasileiras para a exportação começa a ser derrubada. Pelo menos é esta a impressão de compradores estrangeiros da área de vestuário. Um grupo de 30 deles está no Brasil para participar de feiras de confecções reunidas neste ano em um único período, que começou em 30 de maio e vai até 11 de julho. A opinião é de que o Brasil está agora mais empenhado em fazer negócios, ao contrário de cerca de dois anos atrás. Michael Gould, representante da importadora francesa Lorelei Wear, afirmou que as confecções brasileiras estão mais adequadas agora às exigências dos compradores internacionais. Antes, segundo ele, o Brasil tinha bom preço, mas pecava em relação à qualidade dos produtos e prazos de entrega. E neste momento está prospectando o mercado para novas negociações também de moda íntima e malharia jovem.

Já para Paulo Ribeiro, comprador da rede varejista Macmoda, com 33 lojas em Portugal, o Brasil tem se mostrado alternativa aos países do Extremo Oriente, cujos produtos respondem por cerca de 30% das vendas da cadeia. Ele avalia que, caso os negócios aqui prosperem, a empresa pode transferir ao Brasil metade deste volume de importações. Gould reclama dos custos da emissão de carta de crédito, que é o instrumento mais usual de pagamento de exportações. Em média, a taxa varia de 1,5% a 3% do valor da compra.

Exportações de carne sob risco
A menos de um mês da entrada em vigor de nova regra para a certificação bovina, a procura pelo serviço de empresas credenciadas não cresceu, segundo informações do setor. A partir de 15 de julho, só será certificado o animal cujas informações estejam no mínimo há 40 dias no banco de dados central do Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov), controlado pelo Ministério da Agricultura. Hoje, a identificação, feita para atender a mercados externos, é realizada até um dia antes do abate. Certificadoras como a Biorastro dizem que, apesar de o tempo estar correndo, a procura pela certificação não aumentou nas últimas semanas.

O diretor da empresa, Valmir Rodrigues, lembra que os pecuaristas que solicitarem o registro antes de 15 de julho poderão abater seus animais normalmente após esta data, mas quem decidir pela certificação no dia seguinte terá o animal “preso” no sistema, com abate liberado só após 40 dias. Uma missão técnica da UE vem ao País em julho para uma nova avaliação dos procedimentos sanitários adotados pelos frigoríficos brasileiros. O presidente da Associação das Empresas de Certificação e Rastreabilidade Agropecuária (Acerta), José Luiz Vianna, diretor da Planejar Brasil, acredita que a transição para a adoção do novo prazo será tranqüila.