Alerta
Falta de menstruação significa problema
São José do Rio Preto, 24 de Setembro de 2002
  Editoria de Arte  

Cecília Dionizio

A menstruação, por mais incômoda que seja, é um reflexo de boa saúde, seja na menarca (como é chamada a primeira menstruação) ou próximo da menopausa (quando a mulher pára de menstruar). É o que informam vários especialistas num artigo recém-publicado, sob o título ‘Distúrbios Menstruais na Adolescência: Diagnóstico e Tratamento’, pela Sociedade Brasileira de Ginecologia Endócrina (Sobrage). Menstruar significa, no mínimo, que a mulher está ovulando, o que seria um reflexo do bom funcionamento do organismo. Contudo, nos dois primeiros anos de vida menstrual é comum as adolescentes apresentarem alguns distúrbios menstruais, o que ocorre também ao longo da vida adulta. Porém, se esses distúrbios não forem de curta duração, podem significar o início de uma irregularidade menstrual crônica. “É importante, por essa razão, estabelecer desde o início um plano diagnóstico, terapêutico e de seguimento para cada paciente”, explica o ginecologista Laudelino de Oliveira Ramos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, um dos autores do artigo.

A ausência de menstruação é classificada de maneira variada. O distúrbio mais freqüente na adolescência é a amenorréia e, a seguir, o sangramento uterino disfuncional, e pode ocorrer por diversos motivos, dentre eles o emagrecimento intenso, excesso de peso, estresse, tumor, alterações na tireóide e, principalmente, devido a algum distúrbio hormonal. O ginecologista Carlos Eduardo Ferreira, da Santa Casa de Rio Preto, alerta que a ausência de menstruação por no mínimo três meses, pode levar à predisposição de câncer do endométrio. E quando não ocorre a menstruação decorrente de uma ovulação, o que se passa é um sangramento uterino disfuncional. Além disso, o desvio menstrual para menos (espaniomenorréia) é também uma conseqüência de alterações no organismo, embora seja menos freqüente. De acordo com o artigo do ginecologista Laudelino de Oliveira Ramos, professor e chefe de Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em 55% dos casos a falta de menstruação se refere à amenorréia hipotalâmica; em 44% à síndrome dos ovários policísticos; e em 1% à amenorréia hipergonadotrópica de mulheres jovens ou menopausa precoce.

A amenorréia hipotalâmica ou simplesmente funcional deve-se, geralmente, ao emagrecimento por restrição calórica, ao exercício físico excessivo ou ao estresse psicológico. Cerca de 4% das pacientes desenvolvem a hiperprolactinemia. “São pessoas que têm a produção aumentada da prolactina, um hormônio produzido pela glândula hipófise”, explica Carlos Eduardo. O médico esclarece que o sangramento uterino disfuncional freqüentemente se apresenta como uma urgência médica, pois ocorre a cada dois ou três meses, sem que a mulher tenha ovulado. “Se ela não menstruar pelo menos três vezes por ano, sem que esteja usando anticoncepcionais específicos para a inibição da menstruação, deve procurar tratamento imediato”, observa. As causas mais comuns do sangramento são imaturidade axial, síndrome puerperal, distúrbios emocionais ou nutricionais, hiperprolactinemia, hipotireoidismo, iatrogenia medicamentosa e síndrome dos ovários policísticos. Amenorréia primária pode ocorrer com ou sem retardamento do processo geral de amadurecimento ou puberdade tardia. As pacientes com retardo fisiológico da puberdade são freqüentemente magras (63%) tendo peso corporal menor do que 85% do peso ideal. A idade óssea é inferior a 14 anos, contrastando com a idade cronológica de 15,7 anos. Pode haver anormalidades genéticas.

O desvio menstrual para menos compreende a oligomenorréia e a espaniomenorréia. Aparece durante os primeiros anos de vida menstrual e geralmente se resolve espontaneamente. Os casos de hiperandrogenismo, em geral associados à síndrome dos ovários policísticos, podem evoluir para amenorréia secundária ou simplesmente permanecer com desvio menstrual para menos. O médico Laudelino informa em seu artigo que o diagnóstico dos distúrbios menstruais só pode ser realizado pelo conjunto da história, do exame físico e dos exames complementares.

Tratamento hormonal é indicado
Os médicos informam que o tratamento da ausência de menstruação deve ser feito de acordo com a causa da amenorréia e do desvio menstrual para menos, os quais podem, em muitas situações, ser tratados com a administração de progestágeno, um hormônio específico para estes casos. O objetivo final do tratamento hormonal de reposição vai refletir também na altura da menina e desenvolvimento das características sexuais secundárias, além de melhorar o seu bem-estar nas áreas críticas da família, escola e sociedade. A estatura baixa acentua a sensação de ser diferente o que é particularmente penoso na vida escolar, conforme descreve o ginecologista Laudelino em seu trabalho, no qual afirma que mesmo um pequeno aumento da altura melhora a qualidade de vida. Outro item importante é a mineralização óssea. A estudante de psicologia, A.M.Q, 20 anos, conta que por muito tempo sofreu com o problema de ausência menstrual e também com a baixa estatura, somente após um tratamento rigoroso para crescer foi que conseguiu, por volta dos 18 anos, ter uma menstruação equilibrada. “Me sentia muito mal, além de alterar meu humor era como se estivesse inchada e com dores por várias partes do corpo. Ainda bem, que a reposição hormonal funcionou”, relata.

Segundo os especialistas, pode-se realizar a reposição hormonal com progestágenos ou ciclos artificiais a longo prazo. Mesmo no caso da paciente que faz terapia, o ciclo hormonal pode tardar a normalizar-se, caso em que a reposição hormonal também é justificada. Adolescentes com diminuição menstrual não necessitam de tratamento, na maioria das vezes. A administração de progestágenos pode acelerar a normalização menstrual. O ginecologista Carlos Eduardo explica que hoje já existem novas drogas - além dos hormônios - que podem ser usadas em casos que registram associação com a síndrome dos ovários policísticos, embora a indicação seja adequada ao quadro clínico de cada paciente. A grande maioria de casos de amenorréia neural está relacionada ao estresse, embora possa haver bloqueio ocasionado por medicamentos, principalmente esteróides sexuais e tranqüilizantes. O retorno da função menstrual pode ocorrer espontaneamente na vigência dos exames, desde que sejam suspensos, por exemplo, os tranqüilizantes.

Serviço:
Sobrage- www.sobrage.org.br -(16) 602-2821
Carlos Eduardo Ferreira, ginecologista da Santa Casa de Rio Preto, (17) 234-2322