Comportamento
Empatia
São José do Rio Preto, 8 de Março de 2009
  Orlandeli/Editoria de Arte  

Renata Fernandes

Ao consultar os dicionários Aurélio e Houaiss constata-se que empatia é muito mais que um substantivo feminino. Com etimologia proveniente do inglês, traduzida do alemão e derivada do grego, é preciso mais que conhecimento gramatical para ser ou se tornar empático. Segundo informações da enciclopédia virtual Wikipédia, o termo foi usado pela primeira vez no início do século 20, pelo filósofo alemão Theodor Lipps, para indicar a relação entre o artista e o espectador que projeta a si mesmo na obra de arte. Esse conceito, de fato, ficou no século passado. Hoje, empatia significa muito mais e, independentemente das inúmeras definições que apareçam para a palavra ao se fazer pesquisas pela internet, o que importa é colocar seus preceitos em prática. Isso porque estudos já indicam que empatia tem resposta humana universal, comprovada fisiologicamente. O educador Eugênio Mussak, que dá consultoria e palestras sobre comportamento humano, afirmou, em artigo de sua autoria, que há duas práticas que criam empatia.

“A da pessoa que se coloca no lugar da outra e a da pessoa que estimula a outra a se colocar em seu lugar. No primeiro caso predomina a capacidade de entender e no segundo a capacidade de se fazer entender. As duas são igualmente importantes.” O antropólogo e sociólogo Tariq Kamal diz ainda que fazer algo pelo mundo é o máximo em empatia e todos devem ter esse dever. Apoiar causas nobres, patrocinar arte e cultura, realizar bazares beneficentes e ser voluntário em ações sociais são apenas alguns exemplos de como cada cidadão pode contribuir.” Mussak esclarece que quando não se cria empatia em uma relação não há verdadeiramente um diálogo e sim dois monólogos ocorrendo simultaneamente. Além disso, para ter empatia é preciso dividir experiências, ajudar, sensibilizar e atrair pessoas. Quem explica melhor o que é empatia, como funciona e deve ser empregada no dia-a-dia é o filósofo, professor e conferencista nas áreas de comportamento Múcio Morais. Confira.

Bem-Estar - O que, de fato, é empatia?
Múcio Morais - Muito mais que se colocar no lugar do outro, a empatia é baseada em sentir o sentimento do outro. Sem essa perspectiva, ser empático passa a ser apenas uma técnica desprovida dos melhores valores humanos e aí os resultados, ainda que positivos, não chegam a ser satisfatórios ou extraordinários. A empatia surge da comunicação entre o cérebro e o coração, quando a mente percebe e pede ao coração que o ajude na análise e nas ações.

Bem-Estar - A empatia é inata ou pode ser desenvolvida? Como?
Morais - Diria que as duas origens são prováveis, mas é evidente que aquele que traz a empatia em sua bagagem da cultura de relacionamento, que a vivenciou na família e em outros círculos de convivência tem estímulo a interagir com a necessidade alheia muito mais interiorizado do que aquele que simplesmente foi treinado. Por outro lado, mesmo esse “empático nato” pode aprender e amadurecer à medida que experimenta, observa e conclui. Desenvolver empatia é um exercício de consciência diário e à medida que a sociedade se sensibiliza ou embrutece o reflexo é imediatamente notado nas relações humanas.

Bem-Estar - Qual a diferença entre simpatia e empatia?
Morais - Quando os sentimentos, emoções e reações de alguém são compreendidos e apreciados até mesmo por outra pessoa, pode-se dizer que houve “simpatia” e esta pode ser mútua ou não. A simpatia é o simples entendimento do sofrimento do outro. Em outra vertente, podemos entender a simpatia como apreço, admiração aos atos e ideias de outros. Já a empatia é proativa, deriva-se inicialmente, na maioria dos casos, da simpatia, mas ocorre no campo da ação, ou seja, quem é simpático se compadece ou admira-se enquanto quem é empático faz algo por compartilhar do sofrimento e sentimentos alheios.

Bem-Estar - Por que a maioria das pessoas tem dificuldade em se colocar no lugar do outro?
Morais - Não diria que a maioria das pessoas tem essa dificuldade. A meu ver, estamos desenvolvendo uma cultura de relações sociais individualista, em que agir em favor do outro é quase um ato de heroísmo ou sacrifício. Penso que esse sentimento é muito mais suprimido ou sufocado pelas pessoas do que inexistente. Creio que precisamos sair da multidão e repensar nossas ações.

Bem-Estar - Qual a relação entre talento, sucesso e empatia? Por quê?
Morais - O talento, salvo algumas variantes, conduz ao sucesso e uma dessas variantes é a empatia. Alguém que se dispõe a aplicar suas habilidades em determinada área, com compromisso, determinação e foco é um sério candidato ao sucesso. Porém o desenvolvimento da empatia em suas relações pode ser o fator fundamental para abrir ou fechar caminhos, é a diferença entre sucesso e sucesso com “significado e sentido”. Conheço muitas histórias de pessoas que causavam verdadeiro espanto dado ao talento em determinada área, porém a incapacidade de perceber as pessoas, a falta de simpatia e empatia tornaram os caminhos, que à primeira vista pareciam naturalmente pavimentados e livres, um verdadeiro ‘rally’ pela vida e acabaram no ostracismo.

Bem-Estar - Qual a função da empatia no processo de crescimento pessoal e profissional?
Morais - Recentemente realizei uma palestra sobre Desenvolvimento Pessoal e Espiritualidade nas Empresas em um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, ao terminar a apresentação, aproximou-se de mim um jovem advogado que me fez a seguinte afirmação: “Sabe de uma coisa professor Múcio, se eu não tivesse parado para escutar esta palestra, tenho certeza que em alguns anos eu seria um dos profissionais mais frustrados em minha área. Estou tão mobilizado em meu desenvolvimento ‘profissional’ que, ao ouvi-lo, percebi o quanto estou empobrecido em minha sensibilidade e em meus relacionamentos.” A função da empatia é fazer dos profissionais “gente”, e das pessoas, “profissionais”.

Bem-Estar - Por que, às vezes, o fracasso é que motiva as pessoas a mudarem o rumo de suas vidas? Qual a melhor maneira de mudar, sem antes ter fracassado?
Morais - Normalmente, em nossa cultura, não planejamos nem organizamos o curso de nossas vidas. A automotivação deveria ser o ponto de partida da mudança, mudar porque preciso, porque quero, porque vislumbro... A falta desses agentes faz com que os eventos (bons ou ruins) tomem lugar como agentes motivadores das mudanças. O sofrimento deveria ser um evento aferidor de comportamento e não o agente. Assumir o controle da própria vida, tornando-se seu próprio agente de mudanças em substituição às emoções causadas ou não por eventos é maneira mais prática de alcançar o sucesso.

Bem-Estar - Quando alguém está desmotivado, o que deve fazer para sair desse estado?
Morais - Muita gente, em diversos níveis, é dependente exclusivamente dos fatores externos para se motivar, isso também é gerado por uma cultura de eventos, ou seja, precisa ocorrer algo para mexer comigo. A automotivação é conquistada a partir de nossa decisão de buscar a melhoria da qualidade de nossos pensamentos, é na mente que tudo acontece, é lá que as perspectivas, possibilidades, os projetos e as decisões são tomados. Uma mente sadia implica administração adequada desses fatores. A motivação é resultado do equilíbrio entre a certeza de que estamos no caminho certo e o resultado disso, interna e externamente. A motivação deve girar muito mais em torno de nossa crença no sucesso do que no sucesso propriamente dito, uma vez que quando o alcançamos, esse se torna etapa vencida em nossa vida e logo se não tivermos novos projetos caímos no estado de desmotivação.

Bem-Estar - A maioria das pessoas tende a achar a ‘grama do vizinho’ mais verde, assim como tendem a esquecer os próprios defeitos e julgar os dos outros. Acredita que as pessoas não devam fazer julgamentos e comparações? Como evitar essas situações?
Morais - As pessoas são diferentes em muitas coisas, potencial, capacidade, oportunidade, e isso interfere nas possibilidades e perspectivas de cada indivíduo. Ninguém detém o conhecimento completo desses quesitos em relação ao outro, portanto julgar sem conhecimento integral será sempre um risco. Quanto às comparações, ela cai no mesmo campo do julgamento. Quando nos comparamos ou comparamos alguém com outros, estamos sugerindo uma igualdade quase absoluta de condições e isso, além de injusto, se torna uma pressão terrível. Sucesso deve ser, antes de outras perspectivas, uma questão individual. O que é o meu sucesso pode não ser o seu. A felicidade não tem um copo medidor, é diferente e depende de muitos fatores que cercam cada indivíduo. Tenho um amigo que sempre comenta sobre seus projetos e sonhos, é uma das pessoas mais íntegras emocionalmente que conheço, e reparo nele um detalhe muito interessante, seus comentários sempre chegam no diminutivo: “Quero agora construir uma casinha, comprei meu carrinho, adoro minha mulherzinha, ganhei um cachorrinho...” Isso poderia parecer uma deformação ou falta de ousadia quanto ao futuro e suas possibilidades, mas não é. Isso é sua fórmula de felicidade, é como ele vê a vida de suas perspectivas, é uma visão simples de si mesmo, sem comparações.

Bem-Estar - Pode dar algumas dicas para quem deseja ser mais empático, seja no ambiente de trabalho, na família ou com os amigos.
Morais - Como disse no início, a empatia surge da comunicação entre o cérebro e o coração, quando a mente percebe e pede ao coração que o ajude na análise e nas ações. Isso pode parecer poético? Mas é. Vida tem de ter poesia, por isso as dicas básicas são simples: deixar-se tocar pelos melhores sentimentos da vida, reeducar-se no sentido de observar as belezas que o cercam, acordar mais cedo para ver o nascer do sol, olhar fixamente para as fotos de família, sentir o cheiro das pessoas ao abraçar, criar ou aproveitar momentos mágicos, não perder a chance de estar junto, de dar uma boa risada, de comentar as necessidades do mundo, de não se esquecer que a maior necessidade começa dentro de nossa casa e depois segue no sentido vizinho-humanidade... Pieguismo? Outra dica: esqueça os rótulos. Empatia nos chama a abrir mão de rótulos e do medo dos enquadramentos. Empatia implica liberdade da personalidade e suas expressões, é quase um grito de independência aos rótulos e massificação que identifica todo mundo como todo mundo. Reeducação de dentro para fora é a base para se tornar empático e saber interiorizar os resultados.


Divulgação

RAIO X:
Múcio Morais - Professor, palestrante motivacional, conferencista nas áreas de comportamento, desenvolvimento pessoal, marketing, gestão, vendas e finanças. Filósofo de formação, teve sua trajetória empresarial como executivo de empresas brasileiras e multinacionais. Atualmente está nas grandes corporações como consultor e coach, realizando palestras e seminários voltados para o desenvolvimento humano e empresarial. Atua também no terceiro setor, projetando e orientando a implantação de projetos sociais. Articulista, crítico e escritor. Além disso, escreve para 67 jornais em diversas regiões do Brasil e possui artigos e comentários publicados em mais de 160 sites especializados. Site: www.muciomorais.com