Novas técnicas
Seringueiras mais produtivas
São José do Rio Preto, 10 de Fevereiro de 2008
  Divulgação  
Capas plásticas eliminam plantas ‘concorrentes’ às mudas de seringueira

Carlos Eduardo de Souza

O setor de produção de mudas de seringueira está desenvolvendo técnicas que assegurem plantas mais vigorosas e que entrem em sangria num período mais curto de tempo. De acordo com Gilberto Ferreira Júnior, do Grupo Polifer, a maior parte das encomendas de mudas que recebe atualmente, são de grandes grupos empresariais que enxergam na seringueira uma alternativa de ganhos a médio e longo prazo. "Somente 10% dos fornecimentos são para produtores com menos de 5 mil pés de seringueira", afirmou. Por esse motivo, alguns proprietários de viveiros não se limitam a fornecer mudas, mas oferecem pacotes completos que podem ser de acompanhamento de um ano após o plantio no campo ou ao até o início da sangria, com sete ou oito anos de assistência técnica. Os dois viveiros da Polifer Agrícola, em Macaubal, já utilizam há anos lonas plásticas entre as ruas para eliminar concorrência de ervas daninhas, manter o solo mais úmido e disponibilizar mais nutrientes para as mudas.

No campo, as mudas são plantas em covas e tem a superfície da bacia coberta com uma lona plástica que também impede a brotação de ervas daninhas e ajuda a manter a umidade do solo. Nas ruas e linhas são aplicados herbicidas para impedir a concorrência por nutrientes. O viveiro Citrosol, de Mendonça, um dos maiores produtores de mudas de citros do estado de São Paulo, passou a produzir mudas de seringueira e deve entregar este ano 250 mil plantas. De acordo com Christiano César Dibbem Graf, diretor da Organização Paulista de Viveiros de Mudas Cítricas (Vivecitrus) do Estado de São Paulo, a entidade não dispõe de informações sobre produtores de mudas de laranja, a exemplo da Citrosol, que passaram a produzir também mudas de seringueira. Segundo Karina Ayres, gerente do Viveiro Citrosol, para obter plantas mais vigorosas foram adotados balainhos maiores e um substrato mais rico em matéria orgânica e nutrientes para fortalecer o sistema radicular das jovens seringueiras, permitindo que fiquem semelhantes às mudas de citros. Segundo Ferreira Júnior, em relação ao sistema radicular e manutenção das plantas, há aumento de viveiros e propriedades que utilizam sistemas de irrigação. Além disso, o uso de hidrogel nas covas de mudas que vão para o campo também se ampliou. "O produto é colocado em pó (equivalente a uma tampinha de refrigerante peti) e absorve a água da chuva, tornando-se uma espécie de gelatina. A muda vai absorvendo essa água e isso reduz o risco de perda de plantas", disse.

Mudas maiores
Com uma produção estimada em 100 mil mudas para 2008, Wander Bassan Ruy, proprietário do Viveiro Taquaruçu, em Monte Aprazível, trouxe da visita que fez em companhia de outros heveicultores ao Sudoeste asiático a técnica que utiliza mudas maiores para serem levadas a campo. Enquanto, um muda costuma ser plantada na área definitiva após o terceiro lançamento (cerca de 50 centímetros), Wander Ruy testa na região o plantio de pés de seringueira com até 2,20 metros. O objetivo é levar plantas mais vigorosas para a roça e, dessa forma, antecipar o início da sangria. O Viveiro Taquaruçu também não se limita a fornecer mudas e faz o acompanhamento das seringueiras no campo durante pelo menos 12 meses.

Mudas maiores também servem para cobrir eventuais buracos deixados nos seringal por perda de alguma planta. Falhas no estande significam perda de dinheiro em qualquer atividade agrícola. A Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor) informou que, desde 2005, não faz mais o acompanhamento dos viveiros de mudas e, atualmente, não tem como determinar quantos viveiros estão em atividade nem o volume de novas seringueiras. A entidade propôs às indústrias de artefatos de borracha e pneumáticos a criação de um fundo com contribuição de R$ 0,01 por quilo de borracha processado a ser pago pelos produtores e indústrias com objetivo de custear levantamentos econômicos e atividades de pesquisas, mas a idéia da criação do Fundebor não decolou.

Porta-enxerto usa sementes
No caso do porta-enxertos, também é importante assegurar a origem do material. É muito comum o uso de sementes dos clones GT1, IAN 873 e outros. O clone GT1 apresenta o pólen auto-incompatível e, portanto, a semente é originada por polinização cruzada o que proporciona o vigor do híbrido. "Devido a essa característica, os porta-enxertos de GT1 são bastante homogêneos em condições de viveiro." A verdade é que, teoricamente, se pode utilizar sementes de qualquer clone para se obter porta-enxertos, desde que respeitadas algumas condições. A começar pela área para coleta de sementes que não deve possuir um único clone (plantio monoclonal) para se evitar problemas de endogamia (polinização entre indivíduos aparentados). A endogamia pode ser observada em viveiros pela presença de plantas albinas (sem clorofila), que não se desenvolverão e pela grande variação de vigor das plântulas.

A coleta das sementes deve ser realizada na rua que divide talhões de clones diferentes e nas ruas adjacentes próximas, para garantir que houve polinização cruzada entre os clones. "Tendo em mãos as sementes selecionadas e borbulhas do clone escolhido com origem garantida, certamente o viveiro particular terá êxito", afirma o pesquisador. Independente da muda ser feita na propriedade ou adquirida de terceiros, os cuidados na implantação são os mesmos. Normalmente, se plantam mudas com lançamento maduro ou, então, aquelas com início de brotação das gemas, denominadas mudas brotinho. "O primeiro passo é separação das mudas em lotes homogêneos."

Antes disso deve-se ter em mãos a análise do solo, para que providências como calagem ou gessagem possam ter sido cumpridas. Este assunto é bastante extenso e, portanto, é importante consultar sempre um engenheiro agrônomo pois, em cada propriedade, cada talhão terá uma recomendação de adubação. Outras precauções importantes a serem tomadas no plantio são o controle de formigas, eliminação da Brachiaria (para evitar competição) e o molhamento das mudas logo após o plantio, independente se ocorrerem chuvas ou não. "O sucesso do plantio, do empreendimento, depende de vários detalhes e para quem inicia na atividade, nada melhor que contratar um profissional, pois o futuro do seringal se inicia, na verdade, bem antes do plantio", disse Scaloppi. Outras informações pelo telefone (17) 3422-2423.

Mudas precisam ter garantia de qualidade
O agrônomo e pesquisador científico Erivaldo José Scaloppi Júnior, da Agência Paulista de Tecnologias dos Agronegócios (Apta), do Pólo Regional de Votuporanga, afirma que principal cuidado na compra de mudas de seringueira é quanto à idoneidade do viveirista. "É imprescindível ter garantia da origem genética do clone que se está adquirindo". O diferencial para o viveirista é possuir registro do viveiro ou, pelo menos, pedido de registro (início dos trâmites) junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Segundo ele, a medida ajuda a assegurar a origem do material genético das mudas.

Sem isso, o produtor só irá comprovar a produção das plantas após no mínimo seis anos, no início da sangria quando pode ser tarde demais, com prejuízos incalculáveis. A produção do seringal só é garantida se houver mudas de qualidade, sadias e vigorosas, para que todas cresçam de forma semelhante e atinjam em um maior número possível, o início de sangria ao mesmo tempo. É importante haver homogeneidade entre as plantas por meio de seleção e, com isso, implantar talhões uniformes. Como o número de mudas geralmente é grande, é difícil que todas sejam exatamente iguais. Por isso, se faz a separação das plantas em lotes, que darão origem aos talhões, cada qual podendo ter um manejo diferenciado, correspondendo às características médias daquele grupo de plantas.

Muitos produtores optam por fazer a muda na própria propriedade e alguns cuidados devem ser observados. "Com relação à borbulha (material propagativo para a realização do enxerto), é importante adquirir de viveirista idôneo para assegurar a genética do material", insiste Scaloppi. "Antes de se iniciar um viveiro, é preciso tomar providência quanto ao abastecimento de borbulhas, pois normalmente a procura é maior do que a oferta no mercado e, assim, se evita aborrecimentos". O ideal é, antes de instalar um viveiro, providenciar uma borbulheira compatível com o número de porta-enxertos que se vai utilizar. "A conta é em média 10/1, ou seja, para cada 10 enxertos a fazer, utiliza-se 1 metro de haste com borbulhas. É claro que em 1 metro de haste há mais que 10 borbulhas e um maior aproveitamento vai depender da habilidade do enxertador."

Atividade exige planejamento
Com o aumento pelo interesse pelo cultivo de seringueira para a produção de látex e borracha natural, está ocorrendo uma rápida ampliação no número de viveiros de mudas para atender à demanda crescente na região. Getúlio Ferreira Júnior, produtor rural e proprietário do Grupo Polifer, que fabrica artefatos usados no plantio e sangria de seringueiras, afirmou que programação tornou-se a palavra chave no momento para quem pretende ingressar na heveicultura. Ferreira Júnior lembrou que o seringal só entrará em ponto de sangria, ou seja, trará retorno econômico ao produtor, dentro de sete ou oito anos depois do plantio da muda no campo. Até a planta atingir a fase de sangria, haverá custos de manutenção do seringal.

"Agora, com o crescente interesse pela atividade, é preciso se programar para obter as mudas adequadas para o plantio", disse. Caso contrário, o novo heveicultor poderá adquirir plantas de finais de lotes que não apresentam o vigor ideal para uma boa produção. Ferreira Júnior disse também que, como a atividade tornou-se remuneradora, muitas pessoas estão produzindo mudas para ganhar dinheiro sem ter qualquer compromisso com a produção de matéria-prima. "Somente depois de seis ou sete anos o produtor rural poderá perceber que fez um mau negócio e comprometeu anos de trabalho", afirmou. Uma muda de seringueira custa entre R$ 3,00 e R$ 3,50 com um porte de aproximadamente 50 centímetros de altura e com três lançamentos (brotação de galhos).

Segundo Ferreira Júnior, toda a produção disponível do ano passado foi comercializada e quem não encomendou mudas com antecedência e quiser adquirir agora terá de esperar entre 30 e 60 dias. O Viveiro Giolo, de Cosmorama, só vai ter mudas dentro de 30 dias. A empresa vendeu cerca de 100 mil mudas em 2007 e espera registrar um incremento de 50% nos negócios este ano com a comercialização de 150 mil mudas. Wander Bassan Ruy, do Viveiro Taquaruçu, de Monte Aprazível, também entregou todas as mudas disponíveis. "Vendi umas 100 mil mudas", afirmou. Ele já tem encomendas de lotes de mudas para março e novembro deste ano. "Devemos produzir o mesmo volume do ano passado, fornecendo 100 mil plantas entre mudas de ano (12 meses) e de ano e meio (18 meses)."

Ferreira Júnior afirmou que a Polifer Agrícola comercializou 3 milhões de mudas de seringueira com dois viveiros localizados em Macaubal, atendendo encomendas para grandes empresas que estão ingressando no setor. Este ano, a empresa começa a produzir mais de 3 milhões de mudas em viveiro no município do Mato Grosso do Sul. Ele explicou que o braço industrial da empresa registrou aumento na venda de balainhos e espera um incremento nos negócios com canequinhas suportes para coleta de látex dentro de alguns anos quando as seringueiras plantadas nos últimos anos entrarem em produção comercial. O produtor Hamilton Casado, que mantém o viveiro Sítio São Geraldo, em Neves Paulista, também disse que não existe estoque de mudas de seringueira e as pessoas interessadas em adquirir mudas devem estar dispostas a entrar em filas de espera. "Quem quiser comprar muda de seringueira tem de fazer o pedido hoje para receber daqui a 10 meses, pelo menos", disse.

Ano passado, Casado entregou aproximadamente 100 mil mudas prontas para ir para o campo. "O mercado está firme. Logo depois do Collor, vendi muda de seringueira a R$ 0,60. Hoje, estão vendendo a R$ 3,60 e tudo o que tiver vai", disse. Naquele período, o governo precisou intervir na atividade assegurando, com recursos do Tesouro Nacional, o preço da borracha natural através de subvenção. Atualmente, o heveicultor recebe R$ 4,65 pelo quilo de borracha e os preços no mercado internacional estão aquecidos sem perspectivas que os tradicionais produtores e exportadores da matéria-prima tenham condições de suprir o aumento da demanda.