Remédios pela internet
Justiça condena conexão gaúcha da ´Tráfico.com´
São José do Rio Preto, 10 de Fevereiro de 2008
  Carlos Chimba 7/1/2005  
Delegado da Polícia Federal, Davi Antônio Furlan, que coordenou a operação

Júlio Cezar Garcia

04:20 - A conexão gaúcha da quadrilha rio-pretense que traficava pela internet medicamentos que causam dependência física e psíquica - e que levaram à morte pelo menos uma pessoa nos Estados Unidos (EUA) - foi condenada a penas de oito anos e três meses a dez anos e sete meses de cadeia. A sentença, do juiz Roberto Cristiano Tamantini, da 2ª Vara Federal de Rio Preto, saiu em dezembro, durante o recesso forense, e estava sob sigilo de Justiça. A liberação para publicação só se deu esta semana. Com a sentença, sobe para 13 o número de punidos no caso. Esta é a segunda fase da operação, desencadeada a partir de informações obtidas com a prisão dos rio-pretenses em julho de 2006. Depois de escutas telefônicas e laudos sobre o material apreendido - computadores e arquivos eletrônicos -, em 22 de setembro de 2006, foi preso o líder gaúcho do esquema, Walter Rau da Silva Vieira Júnior, em Pelotas (RS).

Ele recebeu a maior condenação entre os réus da conexão gaúcha: dez anos e sete meses. Rau, que mantinha um site sobre produtos utilizados em fisiculturismo e musculação, inclusive anabolizantes, era acusado de adquirir ilegalmente parte dos medicamentos junto ao Laboratório Licimed, de Porto Alegre, para fornecimento à quadrilha de Fávaro. De acordo com o processo, o gaúcho mantinha um dos laboratórios do grupo em sua casa, onde foram apreendidos R$ 5,2 mil em dinheiro, sete mil cápsulas vazias, 12 litros de produtos químicos, embalagens lacradas sem identificação e ampolas prontas.

Primeira fase
Em agosto de 2007, o juiz Tamantini já havia condenado oito pessoas envolvidas na mesma quadrilha, inclusive o líder Alessandro Peres Fávaro, rio-pretense, que recebeu pena de 27 anos e nove meses. A mulher dele, Juliana, o irmão, Anderson, e a mãe, Enedina, receberam 23 anos e dez meses. Os outros condenados foram Nelson Antonio Sinibaldi Basílio, o Tuca, que está foragido, Jonas Silveira Franco Júnior, Carlos Roberto Martins e Deverson Lourenço Eamanaka (veja mais detalhes no quadro). Eles, menos Tuca, foragido, e Enedina, detida depois, haviam sido presos na madrugada de 26 de julho de 2006, na primeira fase da operação especial que recebeu o nome de “Tráfico.com”, coordenada pelo delegado David Antonio Furlan, da Polícia Federal de Rio Preto. O delegado foi promovido e hoje está em Santa Catarina.

Segunda fase
Depois da prisão do gaúcho Walter Rau, foram identificados, nos dias 10 e 11 de outubro, os participantes C.L.V. e Olivério Borges Júnior, sócio e vendedor, respectivamente do Laboratório Licimed. Eles responderam ao processo em liberdade, graças a um habeas corpus. Mas também foram condenados a nove anos e dois meses, cada, acusados de vender ilicitamente 12,7 mil caixas de entorpecentes e psicotrópicos, num total de 350 mil comprimidos. Também foram presos Endrigo Jorge Possenti e sua mulher Sandrine de Oliveira Tavares. O casal recebeu penas de oito anos e três meses. O Diário apurou que Endrigo era farmacêutico responsável pela farmácia da Secretaria Municipal de Saúde de Capão do Leão, a poucos quilômetros de Pelotas, e foi preso em seu local de trabalho. A mulher dele foi presa na loja de suprimentos alimentares para musculação, em Pelotas.

A conexão gaúcha obtinha os medicamentos como se fosse aquisição de entidades legalizadas, como a Universidade Federal Fluminense, através de cadastros forjados, e enviavam os produtos para a quadrilha de Alessandro, em Rio Preto, ou outros pontos de apoio, como o Uruguai, coordenado por Jonas Silveira Franco Júnior, condenado a 7 anos. Outra conexão da quadrilha estava nos EUA, com a participação do rio-pretense Mauro César Fileto, preso inicialmente em Beaumont, no Texas, e transferido para Oklahoma. Depois de obter informações junto ao consulado brasileiro no Texas, o Diário foi informado de que aquela representação brasileira estava proibida de informar a situação processual do rio-pretense preso lá. Ele é filho de um procurador do Estado em Rio Preto.

Morte nos EUA
Os medicamentos eram enviados pelo Correio, ocultos em cartolina e tiras de algodão, para que passassem por documentos. O pagamento era feito por transferências bancárias internacionais em contas abertas por alguns dos integrantes. A Polícia Federal apreendeu centenas de comprimidos identificados como morfina, oxicodona (oxycontin, também chamado de “heroína dos pobres”), diazepan e zolpiden, substâncias entorpecentes e psicotrópicas. Muitos dos "clientes" eram praticantes de fisiculturismo e usavam anabolizantes para “bombar” a musculatura. A quadrilha vendia até anabolizante veterinário para eles. O órgão norte-americano de combate ao narcotráfico Drug Enforcement Administration (DEA) informou ao delegado David Furlan, em Rio Preto, ter encontrado uma listagem com preços e nomes de produtos enviados pelo site de Alessandro Fávaro, o gehrkes@terra.com.br, na residência Kyle London, cidadão norte-americano. London morreu de overdose em outubro de 2002. Os advogados de todos os condenados recorreram da decisão do juiz Tamantini para tentar reduzir as penas ou anular a sentença, sob alegação de vícios na produção das provas pela Polícia Federal. Todos aguardam decisões do Tribunal Regional Federal.

Como o tráfico internacional foi descoberto
No início de 2004, um envelope que tinha sido postado em Rio Preto retornou sem localizar o destinatário nos EUA. Encaminhado à regional dos Correios em Bauru, após também não ser reclamado pelos remetentes em Rio Preto, o envelope deveria ser incinerado com outras correspondências na mesma situação. Quando o funcionário jogou o bolo da cartas no incinerador, um envelope caiu fora do equipamento. Apesar de ter sido postado como remessa de documentos, havia um volume diferente no interior, o que chamou a atenção do funcionário. Com procedimentos previstos pela rotina administrativa dos Correios, a direção de Bauru abriu o volume e encontrou ali 313 comprimidos. O material foi encaminhado à Polícia Federal de Bauru. Por causa do endereço remetente o caso foi trazido à Polícia Federal de Rio Preto.

Começava ali a “Operação Tráfico.com", sob coordenação do delegado federal David Antonio Furlan. Ao ser ouvido pelo juiz federal Roberto Tamantini, em 2006, Furlan fez o seguinte relato, publicado agora com exclusividade pelo Diário: "Em 2004, me foi distribuído pela chefia da Delegacia um expediente que se tratava de uma notícia crime originária da nossa Delegacia em Bauru. Em síntese, relatava a apreensão dentro de um órgão regional dos Correios de um objeto postal, em cujo interior foram encontrados, salvo engano, 120 comprimidos, sem identificação, embalados de forma artesanal. Esse expediente já era instruído por um laudo pericial do Instituto de Criminalística (IC) de Bauru, concluindo tratar-se de ecstasy. Em razão da postagem ter sido feita em agência dos correios de Rio Preto, este expediente veio encaminhado para cá para apuração pela nossa delegacia. Iniciado o inquérito, eu tinha dados do remetente, apenas que se cuidaria de 'Alessandro P.', caixa postal, salvo engano, 155.

Realizei consulta à ECT a respeito da titularidade da caixa 155, tendo obtido os dados de Juliana Saud Maia em um endereço na avenida Alberto Andaló. Por conseguinte, a intimei (...). Coloquei-a a par de que se tratava de uma investigação referente à remessa de ecstasy para o exterior, já que a correspondência tinha por destino os Estados Unidos. Exibida a ela esta correspondência, simplesmente negou conhecer o destinatário e expressamente negou fosse dela a escrita na parte do destinatário ou do remetente da correspondência. Ela aceitou fornecer material gráfico e num exame pericial, realizado pelo IC de Rio Preto, concluiu-se que, ao contrário do que ela me havia informado, a letra referente à parte do destinatário era dela. O inquérito prosseguiu e, dentre outras diligências, obtive um formulário de passaporte do esposo dela, Alessandro Peres Fávaro, e desconfiei que a letra referente ao remetente daquela mesma correspondência fosse dele. Antes de qualquer exame, o chamei à delegacia.

Ele negou conhecer a destinatária da correspondência e negou reconhecer a caligrafia no envelope. Foi colhido material gráfico dele e, junto com o formulário da expedição de passaporte e documentos escolares que obtive das faculdades que ele havia cursado por algum tempo, obtive um laudo confirmando que a caligrafia, também ao contrário do que ele afirmara, pertencia a ele. Neste mesmo inquérito, eu havia remetido um ofício à Embaixada dos EUA, indagando eventuais saídas desses investigados para aquele país. Autoridades norte-americanas, espontaneamente, vieram até a nossa delegacia, dizendo que Alessandro Fávaro era suspeito de envolvimento no comércio de medicamentos controlados, via internet, tanto para os EUA como outros países do mundo.

Desde então passamos a trabalhar em conjunto, havendo constantes trocas de informações, até que, em diligências realizadas em meados de 2006, agentes da Polícia Federal passaram a interceptar correspondências postadas em São José do Rio Preto, com as mesmas características da correspondência do primeiro inquérito." Esses são os principais trechos do relato do delegado ao juiz Tamantini. O Diário apurou, com um agente ligado ao Drug Enforcement Administration (DEA), departamento americano de combate a entorpecente , que nos dias 15, 17 e 22 de julho de 2006, foram interceptadas 13 correspondências também direcionadas aos EUA, com letras semelhantes às do envelope de Bauru. Nesses dois dias, foram apreendidos nessas correspondências 1.279 comprimidos de oxicontin, alprazolam, diazepan, metadona, morfina e codeína, ou seja, entorpecentes e psicotrópicos. Na madrugada 26 de julho de 2006, equipes da Polícia Federal foram ao Recanto Real, um condomínio de alta classe na zona sul de Rio Preto, e entraram na mansão de Alessandro Fávaro, comprada, com dinheiro do tráfico, por R$ 1,2 milhão. A quadrilha do “Tráfico.com” começava a ser desmontada.