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Parceria amorosa
A busca pelo outro
São José do Rio Preto, 1 de fevereiro de 2005
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Orlandeli/Editoria de Arte
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Renata Fernandes
00:30 - Não parece, mas a escolha de uma companhia e o sucesso de uma relação dependem de muitas experiências de vida. Segundo especialistas em comportamento, desde o afeto recebido dos pais, da estrutura familiar e dos mitos transmitidos sobre relacionamentos até o grau de amadurecimento influenciam o início de uma vida a dois. A psicóloga de casais Meire Fernanda Pandim Ravazzi diz que o grau de autonomia alcançado e a maneira como se estruturam e se resolvem os vínculos com as figuras familiares mais significativas contam bastante na decisão de continuar com uma relação. Ela afirma que, geralmente, com o passar do tempo a escolha de um parceiro(a) se torna mais complicada porque o número de exigências fica maior. O contexto e o tempo em que ocorre o encontro e se desenvolve o relacionamento podem orientar para um tipo de escolha em vez de outra.
Por exemplo, o adolescente que começa uma relação tem expectativas diferentes de quem o faz em idade mais avançada. Segundo a psicóloga, as escolhas são diferentes, assim como as características do parceiro(a). Ela comenta que através das gerações a vida abre novos ciclos com novos valores e formas de agir. “O ser humano está em constante evolução.” Uma das formas de se relacionar dos jovens atuais é ficar, situação em que duas pessoas se beijam ou até transam sem comprometimento. Meire não acredita que a escolha do ficar seja apenas por modismo ou porque a pessoa não quer compromisso. “No fundo muitos gostariam mesmo é de estar com alguém com quem tenham algum sentimento maior e que haja reciprocidade. O ficar protege de uma dor. A dor do medo de ser rejeitado, o medo de escolher, querer estar com o outro e de não ser correspondido. Então, o ficar cria a oportunidade de se conhecerem superficialmente, de terem algum contato físico e emocional prazeroso, mas também libera daquele dilema do dia seguinte, será que ele/ela vai ligar?”, afirma.
Meire reconhece que a pergunta estará na cabeça dos “ficantes” mas, considera que o fato do não compromisso faz pensar que tudo começou e terminou naquele momento, desse modo ficam mais tranqüilos e não se sentem tão abandonados. Ela afirma que homens e mulheres, em sua maioria, estão sempre em busca de alguém e isso ocorre porque as pessoas são seres gregários. “Acho engraçado isso de precisar ter alguém, como se precisássemos de uma tábua de salvação. Antigamente, por exemplo, a mulher que não casasse era uma coitada, seu destino estava selado como uma rejeitada, como se isso fosse um fracasso. Hoje ainda há restrições, mas vejo mulheres solteiras perfeitamente felizes com sua condição e também mulheres casadas que, estas sim, são coitadas”, afirma.
De acordo com o psicoterapeuta e psiquiatra Luiz Cushnir, autor dos livros “Os bastidores do amor” e “A relação mulher & homem”, não existem milagres que ajudem as pessoas a atingir um estilo de vida afetivo como o dos filmes românticos que terminam com final feliz. Ele ressalta que não há uma fórmula, um modo de transformar a paquera em namoro e de encontrar uma relação afetiva ideal e ao mesmo tempo duradoura. “O que se pode fazer é criar relações ‘de verdade’, como dizem sabiamente as crianças. Ou no mínimo relações menos conflitantes, recheadas de bons momentos e talvez, até, de uma espontânea e agradável bandeira branca”, afirma. Meire enfatiza que é bom ter alguém para conviver, trocar e até brigar, mas o perigo está no apego. Ao se apegar, as pessoas podem se sentir incapazes de prosseguir sozinhas, fragilizadas e deprimidas, é como se precisassem do parceiro(a), então ficam à mercê do outro, a felicidade está no outro. “Tudo isso pode virar uma arma de autodestruição na relação”, diz.
Autoconfiança é importante no momento da escolha Na contramão da busca desenfreada por relacionamentos estáveis e duradouros, casais que se encontram nessa situação a repelem. Um exemplo é o fato de homens casados reclamarem insistentemente de suas mulheres e vice-versa. Para explicar essa situação, a psicóloga Meire Ravazzi cita o escritor Mony Elkaim: “Talvez os casais tenham sido criados para suportar melhor a condição humana, para ter alguém para acusar, alguém que seja responsável por nosso sofrimento. Se estivéssemos sozinhos, poderíamos reclamar apenas de Deus. Mas Deus é alguém extremamente difícil de ser envolvido em uma discussão. É então mais fácil com uma esposa ou um marido! Então quem sabe os casais tenham sido criados para nos ajudar melhor nas dificuldades da existência.”
A busca por não se sentir só deve ser individual, seja com alguém ou sozinho. Existe muita gente solteira, sem qualquer compromisso, que é feliz. Por outro lado, muito se fala que o “mercado” está escasso, tanto para homens quanto para mulheres. Mas, seria o “mercado” escasso, ou as técnicas de conquista e aproximação que estão falhas? Meire diz que não sabe se há idealização demais nas escolhas ou se as pessoas têm medo de se envolver e por isso criam obstáculos para estabelecer relações afetivas. Segundo o psicoterapeuta Luiz Cushnir, só se encontra um parceiro quando se está aberto para isso. Ele diz que embora homens e mulheres tenham, atualmente, objetivos parecidos quando o assunto é carreira, eles se distanciam cada vez mais emocionalmente.
A autoconfiança é fundamental para o bem-estar contínuo e principalmente quando o desejo é de iniciar algo mais sério. Uma das premissas para se dar bem num relacionamento é estar bem consigo mesmo. “Se estamos bem, transmitimos isso ao meio e àqueles que convivem conosco. Somos mais autênticos porque nossa auto-estima está equilibrada e as chances de crescer e amadurecer aumentam. Portanto, ficamos mais propensos a encontrar alguém que nos valorize e queira crescer junto”, afirma a psicóloga. Se a intenção é encontrar alguém para uma relação, alguns locais são mais propícios, pois em determinados lugares as pessoas estão mais disponíveis e acessíveis.
Porém, segundo Meire, o que conta mesmo é em que lugar se coloca o(a) eleito(a) na própria vida e ainda se há disponibilidade dentro de si para acolher outra pessoa. Alguns cuidados com a autopromoção são importantes. Ao conhecer alguém, mesmo que não seja para namorar, dificilmente as pessoas mostram seus defeitos, mas falar apenas das próprias qualidades pode parecer estranho. “Ser mais solícito, mais simpático e bem-humorado é interessante, pois os defeitos aparecem à medida que o vínculo afetivo se torna estável”, diz. Diferentemente de uma história acabada, nosso projeto dramático tem de estar de acordo (pelo menos parcialmente) com o do parceiro e ser sempre revisto, recriado. Ela enfatiza que não há felizes para sempre.
Serviço: - Meire Fernanda Pandim Ravazzi, psicóloga de casais, fone (17) 231-4675 - Luiz Cushnir, psicoterapeuta e psiquiatra da USP, fone (11) 3056-9860 email: iden@uol.com.br
:: Dica de livro - Homens sem Máscaras, Luiz Cushnir, editora Campus
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