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A saga da família Medeiros
São José do Rio Preto, 24 de junho de 2007
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Casal Manoel Jorge Medeiros e Silva e Albertina rchanio Lemos Medeiros

Nilce Lodi

15:00 - A História nos ensina que os valores tradicionais podem contribuir para a evolução do indivíduo e da sociedade. Até porque é difícil viver o presente e projetar o futuro sem buscar no passado os exemplos e os valores. Meu propósito, no presente artigo, não é traçar o retrato dos personagens desta história, mas ressaltar que eles tinham a plena consciência do momento histórico que estavam vivendo ao fincar novas raízes numa região em fase de expansão. Fato este decisivo. Sua decisão oportuna ou aventurosa, no fundo manifesta seu espírito pioneiro. Jamais se deve recusar mérito a quem sabe ousar, afrontando riscos e perigos com intuito e senso de oportunidade, como mostra sua história.

Manoel Jorge Medeiros e Silva, conhecido por Coronel Neca Medeiros (de Rio Preto), filho de Coronel Antonio Jacintho da Silva e Blandina Candida da Silva, nasceu em Dores do Aterrado (hoje Ibiraci) (MG), a 07/08/1876. Era o filho mais velho dos 12 irmãos. Gerenciava a fazenda da família, em Franca. Contraiu matrimônio com a jovem Albertina Archanio de Lemos. Tiveram os filhos Alceu Lemos da Silva Medeiros, nascido em 1901, e Alcina Lemos Medeiros, nascida em 1905. Pouco tempo em Franca, o casal acabou vindo para Rio Preto em 1907, forçado pela situação difícil enfrentada pelos produtores de café no início do século 20. A geada, os problemas com a mão-de-obra escassa, a falta de incentivos do governo, dificultavam a cafeicultura na região. Estimulado pelo pai e apoiado pela esposa, decide se dedicar à pecuária em terras do novo, extenso e promissor município de Rio Preto.

Após pesquisar, encontrou o que sonhava e comprou 1600 alqueires de terras da Fazenda São João do Sotero, pertencentes ao dr. João Odorico da Cunha Glória, atuante advogado de Rio Preto, às margens do rio Turvo, com capacidade para 4.000 rezes. Denominou-a Fazenda Santa Maria, pertencente hoje ao município de Onda Verde. Neca Medeiros providenciou a mudança da família. Após longa viagem, a comitiva chega às terras adquiridas. Contou-me dona Alcina que sua mãe, antes de chegar à cidade de Rio Preto, fez questão de trocar as vestes de viagem, vestindo-se com esmero, com chapéu com plumas e sombrinha para proteger-se do sol. Cavalgava num silhão, com elegância. No dia de sua chegada, 15 de junho de 1907, não havia em Rio Preto hotéis com o mínimo de conforto reclamado pelos visitantes da pequena cidade. Maiores desconfortos encontraram nas terras adquiridas. Tudo estava para ser feito. A casa era uma cabana, de chão batido, coberta de telhas, mas as janelas e portas eram fechadas com estacas, como era o costume. Chegaram à tardinha e acomodaram-se fora dela. No dia seguinte, depois de uma faxina geral, os pertences, trazidos em carros de bois, foram descarregados e colocados na casa.

O contraste era gritante entre o enxoval com peças finas e a casa tosca. Era urgente melhorá-la, mas só depois da construção do paiol, onde oleiros, pedreitos e carpinteiros fabricavam todo o material necessário para as construções: tijolos, madeiramento, portas, janelas.... Tudo era produzido ali mesmo, no paiol cercado de varandas que serviam como áreas de trabalho. A ampliação e os melhoramentos da primeira casa só ocorreu dois anos depois, conquistando janelas, porta e assoalho em dois quartos, mas sem forro. D. Albertina tinha uma vontade férrea, embora ainda bastante jovem. Comandava todas as atividades caseiras. Criava porcos e galinhas. Só se comia com gordura de porco, óleo não havia. Quando matavam porcos, cuidava do cozimento das carnes, em fogo baixo e vagarosamente. Depois, eram guardadas em latas com gordura ou eram transportadas para a vila, acomodadas em vasilhas forradas com tirinhas secas de palha de milho, muito limpas.

Faziam queijos, doces e carne salgada. Tudo era para o consumo interno da casa e o que se produzia a mais era vendido em Rio Preto, nos hotéis e vendas. Mamãe preparava defumados. Não havia papel, nem plástico, e as carnes eram embrulhadas na palha de milho cortada em tiras bem fininhas. Hoje é tão diferente. Ela não se atrapalhava, não, como relatou sua filha Alcina. Ensinava às crianças da fazenda a ler e escrever. Durante 15 anos, Neca Medeiros viajou em comitiva pelo norte do Estado de Mato Grosso, adquirindo boiadas. As viagens duravam, em geral, 3 meses. Trouxe milhares de bois da região do rio Coxim, na fronteira com o Paraguai. O lucro obtido com a engorda e comercialização das boiadas foi aplicado na fazenda, dotando-a de todos os recursos da época.

Neca acompanhou o desenvolvimento de Rio Preto e região. Pertencia ao PRP - Partido Republicano Paulista. Por insistência dos amigos Presciliano Pinto e Victor Brito Bastos, entrou para a política e exerceu cargos de responsabilidade. Foi vereador, vice-prefeito e desempenhou as funções de prefeito durante diversos períodos em Rio Preto. Foi escolhido em 1917 o primeiro Juiz de Paz do antigo distrito de Pitangueiras, atual Nova Granada. Depois, eleito presidente da primeira câmara do município recém criado em 1925, Prefeito de Nova Granada em 1926 e presidente da Câmara em 1929.

Entre outros trabalhos realizados, destacamos: a autoria do projeto de lei aprovado em 6/8/1920, que autorizou a Prefeitura a fazer a desapropriação de terreno de 7.744 metros quadrados, na Boa Vista, para doação à Santa Casa; auxiliar do Dr. Mendes Pereira na fundação e reorganização da Santa Casa, em 1921, e de seu vice-provedor, a partir de 1922. Foi um dos fundadores do Automóvel Clube em 1920. Foi um dos principais responsáveis pela instalação do Colégio feminino, em 1920; da Congregação das Religiosas de Santo André. Em 1924, Neca Medeiros deixa a política , dedicando-se à administração de sua fazenda.


Arquivo
1907 – primeira sede, da Fazenda Santa Maria

Família lembra patriarca em julho
Para comemorar a chegada de Manoel "Neca" Medeiros da Silva e sua família, seus descendentes estão organizando um mega encontro a ser realizado na antiga Fazenda Santa Maria, no dia 7 de julho próximo, com missa a ser celebrada pelo Bispo Diocesano, D. Paulo Mendes Peixoto, na capela da fazenda, no município de Onda Verde, seguida de almoço comemorativo. Manoel Neca Medeiros morreu em Rio Preto, no dia 10/08/1962, poucos dias antes do seu 86º aniversário.
Arquivo
1920 – Manoel Jorge na Prefeitura

Animador cultural
Neca contribuiu na divulgação da cultura popular, participando da comissão de festejos de comemoração do 50º aniversário do Município de São José do Rio Preto (1894-1944), responsabilizando-se pela apresentação de espetáculos da Cavalhada. O espetáculo focaliza a luta entre mouros e cristãos. Os grupos se enfrentam em torneios à cavalo disputando a libertação da rainha, representada pela filha de Neca Medeiros, Margarida Maria. Foram feitas três apresentações com a presença de grande público. Participaram das apresentações jovens de Rio Preto, treinados especialmente para o espetáculo por experientes cavaleiros trazidos de Franca.

Dentre outros, Joaquim Diniz, Walterio, Dico e Zezé Verdi. Ordalino e Minervino Carrilho de Castro; João Venceslau Lopes, Venâncio de Lima, Olavo Barbour, Eli Troncoso, Hugo Ferreira, Oswaldo, Pedro Reverendo, Alceu Medeiros, Pedro Baeta, João Carlos e João Alonso Garcia. Todos caracterizados com ricos figurinos, confeccionados especialmente para a festa por Agostinha Pedreira, de Franca. Manoel Neca Medeiros morreu em Rio Preto, no dia 10/08/1962, poucos dias antes do seu 86º aniversário.
Arquivo
1948 – Bodas de Ouro do casal Manoel e Albertina. De pé: Margaria, Otavio, Carmo Zezinha, Lurdinha, Luiz, Mariazinha, Regina, Manoel Jorge, Ignez, Tereza e Alceu. As crianças. M.Luiza, Cid. Alcina Maria, Cecília (no colo), Octavio José; Adultos sentados: Alcina, Albertidna, Neca e Carlota

União dá origem a duas famílias
A família de Manoel Medeiros da Silva e Albertina Lemos Medeiros se multiplicou ao longo dos anos. O casal teve dois filhos, Alceu Lemos Medeiros, que se casou com Carlota Costa Medeiros, e Alcina Medeiros César, que se casou com Octávio Pinto César, dando origem então a duas tradicionais famílias na região: os Medeiros e os Pinto César. Alceu e Carlota tiveram os filhos Dalila Grisi, que foi casada com Walter Grise, Manoel Jorge (ex-prefeito de Onda Verde), que foi casado com Cecília Pinto Cesar de Medeiros, Maria que é casada com Álvaro Gaio, Maria Terezinha que foi casada com Milton Soubhia, Regina, casada com Walter Pala, e Maria Ignez, que foi casada com João Freitas.

De outro lado, Alcina e Octávio tiveram os filhos Sérgio Pinto César, Luiz Pinto César, casado com Ivonny Pinto César, Margarida Maria, que foi casada com Antonio Tarcia Pinto César, Maria do Carmo, casada com Dr. Odilon José Bovolenta de Mendonça, Maria José, que foi casada com José Edmundo Beolchi, Cid Pinto César, casado com Nilce de Moraes Pinto César, Maria Luiza, casada com Dr. Martinho Lúcio de Freitas Junior, Octávio José Pinto César, casado com Maura Rodrigues Pinto César, Alcina Maria, casada com Antônio Balthazar Neves, e Maria Cecília, casada com Abdnego Ocares, residentes no Chile. Esses filhos deram-lhes muitos netos, bisnetos e tetranetos, sendo que a maioria continua em Rio Preto e região, muito embora alguns tenham se radicado na capital paulista, Bauru, Bebedouro, Campinas, São José dos Campos, Campo Grande, Umuarama. Outros transferiram-se para os Estados Unidos e para o Chile.
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