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Conflito
Pare de se autossabotar
São José do Rio Preto, 11 de outubro de 2009
  Orlandeli/Editoria de Arte  

Cecília Dionizio

00:40 - Quando se vive um conflito ocasional, e logo se chega à origem do problema, a solução pode ser mais fácil do que se imagina. No entanto, quando você é o responsável por sua própria infelicidade, nem sempre é tão simples resolver o impasse. Conhecer o ciclo que leva a este impasse, por vezes, é muito assustador. Porém é a única forma de se por fim a um dos piores males do comportamento humano, a autossabotagem. Em entrevista a uma publicação de circulação nacional, sobre este assunto, a psicoterapeuta Maura de Albanesi, diretora do Instituto de Terapia Avançada AMO, em São Paulo, afirma que o processo de autossabotagem já sinaliza um conflito interno. Ao permitir que as atitudes tomadas no decorrer da vida sejam objeto de dúvidas, automaticamente a pessoa passa a se tornar vítima de seu próprio boicote.

A psicoterapeuta lembra que ao não saber o que quer, a vítima se boicota como forma de se defender ou de se punir, o que tem a ver com o sentimento de baixa autoestima e falta de amor-próprio. “É uma atitude que mostra a insatisfação com os rumos que a vida está tomando. Há uma sensação de incapacidade de avaliar e projetar o que realmente se deseja”, definiu a psicóloga à publicação. Os autores do livro “O ciclo da autossabotagem” (Best-Seller), Stanley Rosner e Patricia Hermes, afirmam que episódios vividos na infância podem afetar toda a vida adulta, em função de atitudes destrutivas presenciadas ou vividas, podem se tornar dilemas inconscientes que irão fazer com que a pessoa passe a agir contra si mesma.

Buscar novos caminhos e aprender a lidar com as causas da autossabotagem são alternativas para quem já cansou de repetir a mesma sequência de atuação infeliz, seja nos relacionamentos, no trabalho ou mesmo na interação com outras pessoas. Para o psicólogo americano, o fato é que as pessoas que sofrem de autossabotagem tendem a ver o mundo pelo prisma da cisão, que é a tendência de perceber as pessoas como boas ou más, certas ou erradas, pretas ou brancas. Em virtude de ter se tornado um adulto inseguro, cheio de autocrítica, é bem provável que a pessoa não consiga dissociar-se da figura que sofreu os atos direta ou indiretamente. E ao tentar estabelecer uma relação afetiva, não consegue deixar de acionar o gatilho sabotador, pois há um comprometimento cognitivo de sua memória inconsciente em relação às figuras que fizeram parte de sua infância. Ora um pai autoritário, uma mãe distante, ou cuidadores displicentes. Com isto passa a prejudicar naturalmente sua vida como um todo. Na entrevista concedida ao Diário, o autor do livro Stanley Rosner explica como é que muitas vezes algumas pessoas levam uma vida inteira para enxergar o quanto suas atitudes são afetadas por desconhecerem o mecanismo que compromete suas vidas. Acompanhe abaixo.

Diário - O que leva uma pessoa a se autossabotar, mesmo após tomar conhecimento de que fez isto a vida inteira?
Stanley Rosner - Compreensão e discernimento são o primeiro passo mais importante, mas não é o suficiente. É também necessário que as bases emocionais do comportamento de autossabotagem sejam resolvidas e é essa a parte mais difícil de se trabalhar com o problema.

Diário - Quais são os principais tipos de autossabotagem?
Stanley - A autossabotagem pode se manifestar em alguns ou todos os aspectos da vida, isto inclui relacionamentos, casamentos, educação dos filhos, trabalho e pode até vir de dentro, na forma de vícios, automutilação ou o fracasso repetido quando a falha pode ser evitada.

Diário - É possível que mesmo depois de identificar o processo de autossabotagem o psicanalista seja incapaz de ajudar um paciente a se libertar de tal comportamento, embora seja claro que o paciente não sairá do ciclo por si mesmo?
Stanley - Sim, somente estar consciente do comportamento de autossabotagem não vai resolver. É preciso se recordar da origem e tratar emocionalmente e com firmeza a raiz do comportamento.

Diário - Como é possível recuperar-se e seguir em frente, após a descoberta do ciclo sabotador, ou sempre será necessário a força de um terapeuta?
Stanley - Na maioria das vezes, psicoterapia de orientação psicanalítica que relaciona o presente com o passado é necessário.

Diário - Um ciclo que foi criado por um longo tempo, como pode ser revertido tão logo seja identificado de tal maneira que não haja recaídas?
Stanley - A melhor garantia é avaliar e deixar passar naturalmente a fase de lamentos pelas causas acentuadas e circunstâncias que levaram o comportamento da autossabotagem em primeiro lugar.

Diário - O ciclo da autossabotagem tem início na infância?
Stanley - Na maioria das vezes sim. No entanto, casos de trauma grave na adolescência ou mesmo idade adulta podem ser responsáveis pelo aparecimento de tal comportamento.

Diário - É possível criar filhos saudáveis e felizes a despeito do estrago causado por pais, sabotadores, como por exemplo aqueles que nunca foram capazes de elogiar os filhos?
Stanley - Vai depender da sensibilidade da criança, do resto da extensão familiar, e as forças internas da criança, que vão determinar como ela vai reagir.

Diário - Insistir em relacionamentos fracassados pode indicar a tentativa de sabotagem, ou isto é sinal de fé no outro, de manter e reforçar os laços, o que pode permitir a renovação das críticas?
Stanley - Isso pode acontecer, mas para um relacionamento conturbado, o melhor seria passar por aconselhamento psicológico visando a descoberta de raiz do problema, que poderia ser falta de comunicação, ou falta de apoio emocional, ou ressentimentos não expressos.

Diário - Como um relacionamento entre os casais que aparentemente se complementam pode indicar autossabotagem, admitindo-se que apenas buscam este tipo de relacionamento e sem que ambos identifiquem o problema em momento algum, mesmo depois de passarem por terapia?
Stanley - Se eles se complementam, talvez possam ser felizes prejudicando um ao outro. Alguns casais se beneficiam por sabotarem o outro e serem sabotados. Eles mantêm um nível de equilíbrio que é gratificante para ambos. Se um parceiro abusa do outro e esse parceiro sente prazer em ser abusado, eles vão querer perpetuar esta forma destrutiva de relacionamento, por mais atormentada que seja.

Diário - Enfim, há uma possibilidade de salvação para as pessoas autossabotadoras? Em quanto tempo pode-se libertar ao dar início a um trabalho terapêutico?
Stanley - A pessoa deve estar motivada a mudar-se e estar disposta a passar por uma psicoterapia psicanalítica de longo prazo.
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