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Meio Ambiente
Nem tudo que posso, devo
São José do Rio Preto, 5 de julho de 2009

Rita Fernandjes

02:06 - Uma mesma porção de água alivia um corpo tanto fisicamente, quando se está com sede, como espiritualmente, quando utilizada para benzer, diante de um altar. A reflexão de Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED), vinculado ao Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), dimensiona a importância da natureza para a vida humana. Em entrevista à Revista Bem-Estar, Norma explica como a preservação do meio ambiente pode contribuir para a paz.

Bem-Estar - Qual é a influência do meio ambiente para a paz mundial?
Norma - O meio ambiente perpassa três dimensões: uma dimensão simbólica, outra discursiva e outra de prática social. Tudo aquilo que extrapola o corpo humano pode ser tido como meio ambiente, natural e construído, embora o significado que cada sociedade dê varie de acordo com sua cultura.Uma mesma porção de água pode servir para matar a sede de uma pessoa e isso provocar-lhe alívio físico e, no momento seguinte, envasada de outra forma, ser a fonte onde a mesma molha suavemente os seus dedos para benzer-se diante de um altar, procurando alívio espiritual. Há um mesmo céu azul que cortamos em jatos comerciais no intuito de ir ligeiro de um local ao outro e que arranca poemas dos corações apaixonados. Enfim, há múltiplos olhares, múltiplas facetas do meio ambiente, esferas distintas, mas fundamentais da existência humana. Hoje, rumamos sob o princípio de “thanatos”, um padrão de sociabilidade voltado para a destruição das paisagens naturais, de escárnio e indiferença pelos que nada ou pouco possuem, pela megalomania expressa nas grandes obras de engenharia, grandes casas, grandes carros, pelo culto ao individualismo, pelo desejo e esforço para exterminar tudo o que não afirma o “eu”. Mas no Novo Testamento encontramos uma expressão muito utilizada e pouco refletida: “Nem tudo que eu posso, eu devo.”

Bem-Estar - O Fórum Humitário Global publicou no último dia 29 de maio o relatório ‘Human Impact Report: Climate Change – The Anatomy of a Silent Crisis’, que estima 300 mil mortes anuais por conta das mudanças climáticas - mortes que devem subir para 500 mil por ano até 2030. Quais são as medidas emergenciais a serem adotadas mundialmente para evitar essas mortes?
Norma - Não há medida emergencial que dê jeito. É preciso uma revisão profunda de dois eixos orientadores das relações internacionais. De um lado, seria necessária a revisão no eixo das prioridades na produção e nas trocas econômicas globais e, de outro, revisão das práticas políticas onde ocorre a concentração de interesses, direitos e necessidades dos diversos países. A crise financeira atual deveria ter sido uma oportunidade para que tais revisões fossem feitas, mas não aproveitamos o momento para essa reflexão, isto é, para um debruçar crítico sobre nosso próprio padrão predatório dos recursos naturais e injusto na distribuição de bens e serviços. Se pensarmos que o relatório acima citado não fala de uma dezena de africanos do Sahel que porventura esteja num container clandestinamente entrando na Espanha, mas de milhares de mortes e, como desdobramentos, milhares de refugiados ambientais que vão querer fugir do destino dos que tentarão, em vão, resistir em seus lugares de origem, estamos falando de povos inteiros, que clamarão pelos direitos de reterritorialização frente a uma circunstância em que seus territórios de origem ficaram inviáveis para a sobrevivência humana (por falta de água, pelo calor, pelas pragas, doenças etc).

Bem-Estar - O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um discurso sobre o dia do meio ambiente em que ele diz que o planeta precisa mais do que apenas ações por parte dos governos e corporações, ou seja, precisa de cada um de nós. A senhora concorda?
Norma - Acho que cada um pode contribuir através da compaixão por tudo o que vive. Li, certa vez, que monges tibetanos prezavam a vida no menor dos insetos que viesse a se alimentar de seu sangue, tudo entendido como que fazendo parte do fluxo da vida. Li também, no Evangelho Segundo o Espiritismo que devíamos ponderar acerca das vantagens de salvar a vida de uma pessoa tida como malfeitora, mesmo que isso nos causasse dano fatal, pois aquela poderia ser a oportunidade de dar novo sentido à vida dela. Por fim, há poucas semanas, estive na Guiné Bissau e entrevistei uma pessoa do Conselho Superior Islâmico daquele país, indagando sobre o ponto de vista muçulmano para as mudanças climáticas naquele país. Colhi a resposta de que isso se deve ao fato de que os mulçumanos lá enraizados (quase 50% da população do país) estavam parando de seguir os preceitos do Alcorão, os quais remetiam à necessidade de dedicar regularmente um dia de trabalho aos pobres, transferindo-lhes todos os frutos e proveitos daquele labor naquele dia. Assim, disse-me que Deus estaria penalizando seu povo para que se lembrasse, pela escassez geral, a lição de humildade que haviam se esquecido nos ensinamentos do profeta Maomé. Tais saberes, que orbitam numa esfera diversa da científica, podem e devem, a meu ver, ser entendidos como válidos para pensarmos uma ética alternativa de relacionamento socioambiental. Vivemos sempre com um inseticida na mão e com uma tocha na outra, matando os insetos e pedindo a institucionalização da pena de morte para aqueles que “não têm jeito.” Sob um enfoque científico, no entanto - e ainda que ambiguamente ao que acima afirmei - tenho receio quando autoridades políticas, na esfera multilateral, nos convocam a dissociar nossas práticas cotidianas de um fazer político multiescalar, do local ao global; isto é, suscita que possamos nos alienar daquilo que decidem nossos representantes quando são signatários e reiteram pactos globais injustos e, mesmo assim, possamos ser eficazes em sermos vegetarianos. Talvez, isso seja algo confortador para a acomodação que costumamos nos impor. Ir até onde o braço alcança. Mas se abrimos mão de os entendermos como sujeitos políticos, cujas vozes e silêncios reiteram ou redirecionam as práticas de nossos governantes, abrimos mão de algo que nos custou conquistar.

Bem-Estar - Caso a degradação continue no mesmo ritmo, quais serão as consequências futuras?
Norma - Não será num futuro distante que se dará nossa autodestruição, mas num futuro que estamos nos esforçando para aproximá-lo de nós, quase um presente, um aqui e agora de nossas vidas. A água doce é um elemento direto de dessedentação humana, mas é o elemento que está associado à nossa nutrição, através da dessedentação animal, irrigação de lavouras, manutenção de clima ameno etc. A escassez de água influenciará na dificuldade de nos mantermos adequadamente hidratados, de garantirmos nossa segurança alimentar e condições térmicas satisfatórias para habitarmos determinada localidade. Isso sem falar nas demais funções ecológicas da água, como suporte para outras formas de vida.

Bem-Estar - É possível que no futuro ocorram guerras por conta da falta de água ou outras consequências por conta do efeito estufa?
Norma - Se a diplomacia falhar no foco do que é relevante na agenda da humanidade nas próximas décadas, sim, poderá haver guerras e processos de genocídio, inclusive devido à nossa indiferença frente aos clamores dos bilhões de pobres e miseráveis que fingimos não ver.
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