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Entrevista
Compaixão é sentir com amor
São José do Rio Preto, 6 de abril de 2008
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Banco de Imagem
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“O amor-bondade verdadeiro se baseia no respeito ao outro, é incondicional e exige desapego” |
Renata Fernandes
Compaixão, compaixão e compaixão. Essa foi a resposta do francês Matthieu Ricard, considerado o homem mais feliz do mundo, ao ser questionado sobre qual a principal lição que aprendeu com o líder espiritual tibetano Dalai Lama, de quem é co-diretor e tradutor pessoal desde 1989. A entrevista foi publicada na edição de aniversário da revista Bem-Estar no dia 23 de março. Ao pesquisar o significado da palavra compaixão nos dicionários, é possível verificar a associação da mesma a piedade. No entanto, compaixão não tem a ver com pena, dó. Compaixão está associada ao amor, não julga e necessita de sabedoria espiritual. Para explicar melhor o que é e como exercitá-la, a revista Bem-Estar traz entrevista exclusiva com a monja Isshin Havens, orientadora espiritual da Sanga Águas da Compaixão de Porto Alegre e membro colaboradora do Colegiado Buddhista Brasileiro. Confira a seguir.
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Bem-Estar - Qual a diferença entre piedade (pena) e compaixão? Por que há quem confunda? Monja - Do ponto de vista budista, a compaixão (karuna em sânscrito e pali) é o desejo que todos os seres - incluindo eu mesmo - possam estar livres de sofrimento. Há um elemento de igualdade essencial ou respeito mútuo básico entre eu e os outros seres devido à interdependência. Envolve a compreensão livre de julgamentos do outro. É considerado um dos Quatro Estados Sublimes (ou Os Quatro Incomensuráveis) a serem cultivados na nossa prática. Os outros três são: Amor-bondade, Alegria-altruísta e Equanimidade (igualdade de ânimo tanto na desgraça quanto na prosperidade). A piedade, ou pena, por outro lado, carrega um certo ar de superioridade e até desdém. Não é fácil chegar à percepção correta da interconexão de todos os seres e, conseqüentemente, à prática da verdadeira compaixão. Vivemos presos à delusão da separatividade, cultuamos a nossa individualidade e vivemos um profundo isolamento interno. Assim, nos percebendo como ‘separados’ dos outros seres, dificilmente podemos nos reconhecer como essencialmente ‘iguais’. Desenvolvemos certa arrogância ou sentimento de sermos ‘especiais’ - que pode se expressar tanto no sentido ‘sou especial, superior aos outros’ quanto no sentido ‘sou especial, inferior aos outros’. Perdidos nessa delusão, fica praticamente impossível desenvolvermos a verdadeira compaixão. E fica igualmente difícil compreender a diferença entre compaixão e pena.
Bem-Estar - Na sua opinião, qual a melhor forma de ‘experimentar’ compaixão? Monja - A prática budista é especializada no desenvolvimento da compaixão por meio dos três treinamentos: o estudo dos ensinamentos budistas, preferencialmente com o acompanhamento de um professor do Darma; a moralidade (os preceitos budistas) aplicada na convivência diária e a meditação correta. À medida em que a pessoa reconhece vivencialmente a interdependência, tende naturalmente a abrir o coração com compaixão. Mas, para chegar à verdadeira compaixão é preciso também cultivar a sabedoria espiritual, pois a sabedoria e a compaixão são como as duas asas de um pássaro - ambas são necessárias para o correto funcionamento da outra.
Bem-Estar - Qual a relação entre o amor e a compaixão? Monja - Primeiro temos de esclarecer o que é o amor. Será que é esse amor romântico e possessivo que a gente vê nos filmes? No budismo cultivamos o amor-bondade (metta em pali, maitri em sânscrito), o desejo de que todos os seres sejam felizes - todos sem exceção. Tendemos a confundir sentimentos de apego, posse, sensualidade e desejo de controlar com amor. Acreditamos amar quando na realidade queremos agarrar e segurar perto de nós uma outra pessoa, por acreditar que ela nos trará felicidade. Tentamos controlar as ações de nossos filhos, por exemplo, em nome de ‘amor’. Mas, o amor-bondade verdadeiro se baseia no respeito ao outro, é incondicional e exige um tipo de desapego. O desapego não significa indiferença. Gosto de usar a imagem de estar com um ser pequeno na palma da mão. Se ficarmos com a mão fechada o outro não pode escapar, mas também não pode respirar. Se ficarmos com a mão aberta dando apoio e liberdade o outro pode respirar e se movimentar livremente. No entanto, temos de confiar que esse ser vai livremente escolher estar junto com a gente - pelo vínculo do amor (desapego). O amor-bondade prefere que o outro esteja com a gente somente por livre escolha e nunca por medo, obrigação ou qualquer outro tipo de manipulação. Amor-bondade e compaixão são sentimentos ‘vizinhos’. O amor que deseja a felicidade e a compaixão que deseja que o outro seja livre de sofrimento. Pode-se dizer que são aspectos de um mesmo sentimento de bondade e benevolência profundo.
Bem-Estar - O que é necessário ter ou sentir internamente para exercitar a compaixão de maneira mais continuada? Monja - A paz interior é muito importante, pois quando nos deixamos levar pelas emoções e ficamos escravos dos pensamentos perdemos a clareza para enxergar a realidade como ela é. Ficamos presos na ilusão do isolamento, esquecendo que somos todos um. Acreditamos que temos de nos defender, temos medo do outros. Se até mesmo no momento de conflito podemos lembrar que a outra pessoa é um ser sensível igual a nós - se buscamos compreender o ponto de vista do outro, a razão do outro - se podemos nos arriscar em abrir o coração para o ser sensível do outro - aí vamos descobrir como conviver com os outros de forma compassiva e pacífica. Pode ser que tenhamos de enfrentar um momento de grande injustiça, mas nessa hora é importante reconhecer nossa raiva e mágoa e praticar a compaixão pelo outro - até para nos libertarmos da nossa raiva e mágoa. No fundo, o ‘agressor’ também é vítima de sua própria ignorância. Ao saber que o ódio não cessa pelo ódio, mas somente pelo não-ódio, precisamos cultivar compreensão e compaixão pelo outro, mesmo que talvez tenhamos de tomar medidas legais, por exemplo. O importante é cuidar de nosso próprio coração, da nossa própria atitude. A compaixão ajuda muito para que possamos enfrentar e suportar as dificuldades com dignidade e sabedoria.
Bem-Estar - Para praticar compaixão com outras pessoas, para ajudar verdadeiramente alguém, é preciso ter autoconhecimento? Por quê? Monja - Com certeza o autoconhecimento é necessário, já que a compaixão verdadeira começa em cada um de nós, com a compaixão por si mesmo. Precisamos conhecer a nós mesmos profundamente, reconhecer nossas próprias dores, motivações, qualidades boas e também aquelas características menos dignas (que preferimos ignorar...). Freqüentemente, pessoas usam o ‘ajudar os outros’ como manobra disfarçada de tentar ajudar, ou até mesmo como meio de fugir, de si mesmas, de se distrair de suas próprias infelicidades. Quando é assim essas pessoas se tornam nada mais que o outro lado da moeda de sofrimento. Ao expressar isso, em linguagem budista, continuam presas na dualidade e no samsara. De certa forma, por não enxergar a si mesmas corretamente, ficam sem a capacidade de enxergar o outro corretamente. Normalmente, as ‘soluções’ contribuem à continuidade do problema que se imaginava solucionar... Já com profundo autoconhecimento e ao estar bem centrada por meio da prática espiritual, a pessoa passa a ter uma visão clara da realidade e das verdadeiras necessidades - suas e as do outro. Tendo essa visão clara a ação apropriada também surge naturalmente. Às vezes, a ação correta pode ser uma ação ‘firme’, pois ter compaixão não significa se fazer de ‘capacho’. Por exemplo, a compaixão firme nos faz impedir que uma criança corra atrás da bola que caiu na rua movimentada - é a compaixão firme que coloca limites saudáveis para os filhos... Sem autoconhecimento, somos presas fáceis de nossos próprios condicionamentos passados (traumas) e da manipulação do outro e da mídia, e não vamos poder enxergar as verdadeiras necessidades.
Bem- Estar - É possível ter compaixão por si mesmo e, desse modo, se auto-ajudar? Como? Monja - É. Não somente é possível como absolutamente necessário cultivarmos a autocompaixão se quisermos desenvolver a verdadeira compaixão. É muito freqüente encontrarmos pessoas que não dão a si mesmas o direito de ter compaixão consigo. São perfeccionistas, talvez sofram de ‘co-dependência’ e morram de medo de ser acusadas de ‘egoístas’, entre outras coisas. Para essas pessoas a primeira orientação é cultivar a autocompaixão, aprender a cuidar de si mesmas de forma amorosa e compassiva. Há também aquelas que sentem pena de si mesmas, se percebem como vítimas do mundo, só conseguem ver seu próprio sofrimento. Isso definitivamente não é autocompaixão, pois falta a firmeza de colocar limite saudável em si mesmas. Um monge da escola Teravada, Bhante Henepola Gunaratana escreve: “Aquelas atitudes que habitualmente tomamos conosco tomaremos com os outros e as atitudes que habitualmente tomamos com os outros, tomaremos conosco. A situação é comparável com o ato de servir comida para nós mesmos e para os outros da mesma tigela. Todos comem o mesmo alimento, temos de observar cuidadosamente o que é que estamos servindo.” Assim, sem compaixão conosco não podemos ter compaixão verdadeira pelos outros.
Bem-Estar - Geralmente, que tipo de pessoa precisa da compaixão de outras? Por quê? Monja - Todos, sem exceção. Precisamos do ‘sentir com’, da solidariedade, da empatia, simpatia, compreensão. Somos todos interconectados. Somos todos ‘UM’. Igualmente, cada um de nós precisa cultivar a compaixão para todos os outros seres, sem exceção. Enquanto reservamos nossa compaixão para uns poucos escolhidos e fechamos os corações para outros não estamos praticando a verdadeira compaixão.
Bem-Estar - Uma pessoa que esteja passando por uma situação ruim e recebe a ajuda de alguém, que no caso sente compaixão por ela, deve agir de que modo? Monja - Ao receber ajuda num momento difícil devemos aceitá-la com dignidade e gratidão e passar a compaixão para frente agindo de forma compassiva com os outros. Podemos praticar a compaixão com atos pequenos de amizade, empatia, generosidade. Até um simples sorriso pode ser um ato de ‘sentir com’.
Bem-Estar - Pode dar dicas de como ‘oferecer’ compaixão sinceramente? Monja - Ao olhar para um ‘sem-teto’ não olhe com olhos de superioridade e nem imagine que ‘sabe’ o que é melhor para ele. Nem todos os ‘sem-tetos’ desejam tetos! Ao saber que um amigo ficou com o vírus HIV, por exemplo, não o abandone fugindo por medo, mantenha a amizade. Ao lidar com um doente terminal esteja lá presente dando espaço para ele poder falar da morte. Quando o seu filho errar não seja duro demais com ele - nem mole demais. Quando você mesmo errar não seja duro demais consigo - nem mole demais. Exercite a compreensão, a aceitação de nossas limitações humanas. Respire fundo. Dê a si um momento para relaxar, para ouvir o pássaro cantando, para apreciar o pôr-do-sol. Solte um pouquinho aquela armadura que todos vestimos tentando proteger nossos corações. Permita-se deixar essa região do corpo ficar mais macia, mais aberta, mais livre. Ao olhar para uma criança brincando feliz, seja feliz com ela - essa ‘alegria altruísta’ também é compaixão (‘sentir com’)! É o lado positivo da moeda do desejo que esteja livre do sofrimento... Experimente a meditação - mergulhe dentro de você mesmo, onde descobrirá sua própria natureza essencial e sua conexão com todos os outros seres. Naturalmente, a compaixão verdadeira se manifestará. Um texto da tradição Teravada que oferece boas explicações sobre a prática budista é ‘Conselhos Práticos para Meditação’, disponível no site http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/conselhos_praticos_meditacao.php.
Prática diária para o cultivo da compaixão:
:: Verso dos Quatro Incomensuráveis: :: Que todos os seres possam ter equanimidade, ser livres de apego, agressão e preconceito :: Que possam ser felizes e ter as causas da felicidade. :: Que possam ser livres de sofrimento e das causas do sofrimento :: Que possam nunca ser separados da felicidade, que é livre do sofrimento
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| Divulgação
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>> Raio-X Monja Isshin Havens, 60 anos, é monja Zen Budista da tradição Soto Zen, orientadora espiritual da Sanga Águas da Compaixão de Porto Alegre, membro colaboradora do Colegiado Buddhista Brasileiro, palestrante da Universidade Falada e praticante de Aikido. Sites - www.monjaisshin.wordpress.com ou www.aguasdacompaixao.com
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