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Violência virtual
domingo, 29 de agosto de 2010
Cyberbullying afeta 21,5% dos adolescentes
 
  Guilherme Baffi
 
  Aluna de 13 anos teve página no Orkut invadida; agressor enviou ofensas a amigas usando o nome dela

Falsos recados de paquera encaminhados a meninos transtornaram a vida da estudante F.S., 13 anos, moradora de Rio Preto. O constrangimento aconteceu há dois anos, quando ela teve sua página no site de relacionamentos Orkut invadida. O agressor aproveitou a oportunidade para causar intriga entre o círculo de amizades da jovem, enviando mensagens com xingamentos para suas amigas. A garota conta que foi um período muito difícil em sua vida, mas que aproveitou o episódio para aprender a se defender desse tipo de intimidação.

A violência virtual, como a causada a F.S., - também conhecida como cyberbullying -, representa um dos maiores riscos da internet para 16% dos adolescentes brasileiros que utilizam a rede, conforme pesquisa realizada pela ONG Safernet (de defesa dos direitos humanos na internet), divulgada em fevereiro deste ano, envolvendo 2.160 internautas do País com idades entre 10 e 17 anos.

Em Rio Preto, o cyberbullying também faz mais vítimas do que a prática convencional, normalmente realizada nas escolas. Pesquisa realizada com 566 alunos de 11 a 15 anos de duas escolas de Rio Preto (uma pública e outra particular) revela que 21,5% dos entrevistados já receberam mensagens com ofensas enviadas pela internet, sendo que 16% sofreram o bullying físico.

Do total de adolescentes, 14,8% foram alvos de calúnias e difamações por meio de Orkut, Messenger (MSN, programa de troca de mensagens instantâneas) e email, enquanto 5% tiveram a senha furtada e o email invadido. Apenas 9% comentaram com outra pessoa que sofreram a humilhação.

Segundo a pedagoga Cléo Fante, responsável pelo levantamento e pesquisadora do bullying há dez anos, o cyberbullying ocorre no País há pelo menos seis anos. Muitas vezes, os autores usam nomes e fotos falsas. Além de mensagens, eles também fazem montagens com fotos e vídeos das vítimas com objetivo de denegrir a imagem delas. “Na internet, o autor tem a sensação de impunidade e imagina que aquilo será visto apenas por um grupo de pessoas, sem ter noção da abrangência da rede de computadores”, diz Cléo.

Para a psicopedagoga Andréa Della Corte Barros, o cyberbullying é mais difícil de ser evitado do que o bullying. “Na escola, funcionários podem perceber o comportamento das crianças e adolescentes e evitar que a situação tenha como consequência uma agressão física”, afirma. “Já na internet, esse tipo de controle é mais difícil.”

A educadora Cléo cita ainda o anonimato do agressor como fator agravante. “O desconhecimento da autoria compromete as relações sociais, uma vez que os colegas passam a ser suspeitos, o que gera isolamento e provoca falsidade nas relações.”

As vítimas de cyberbullying podem apresentar uma série de distúrbios, como ansiedade, apatia, agressividade, medo, oscilação de humor, distúrbios alimentares e de sono, dores de cabeça e de estômago, além de apresentarem problemas no processo de aprendizagem, devido à dificuldade de concentração.

Acesso restrito

A estudante G.D., 16 anos, se recorda bem da primeira vez em que sofreu cyberbullying, há três anos. Alguém descobriu a senha do seu perfil no Orkut e publicou ofensas pessoais no espaço. “Fiquei muito nervosa. Quem fez aquilo era uma pessoa conhecida, porque tinha várias informações sobre mim. Mas nunca descobri quem era”, diz.

Ela criou um novo perfil na rede de relacionamentos e tomou o cuidado de aceitar somente amigos e colegas. Apesar disso, continuou sofrendo cyberbullying por donos de falsos perfis. A solução foi permitir que apenas conhecidos tivessem acesso a sua página de recados no site. “É melhor tomar cuidado do que sofrer à toa com besteiras de quem tem inveja da gente”, afirma.

Quem também sofreu com o cyberbullying foi K.W., 13. A garota foi vítima de xingamentos pelo MSN. “Pessoas desconhecidas me adicionavam e só falavam besteiras, com mensagem sobre sexo. Alguns queriam meu endereço, mas não informei”, diz. Evitar contato com desconhecidos também foi a solução encontrada por P.B., 12, para não ser vítima do cyberbullying. “Minha mãe me orientou a não adicionar estranhos no Orkut. É uma forma de correr menos riscos.”

Vítimas têm comportamento alterado

“O cyberbullying mudou a personalidade da minha filha. Depois de ser vítima de ataques no Orkut, ela passou a frequentar a escola apenas pela necessidade do estudo. Não tinha amigos e nenhum prazer em estar ali”, afirma a administradora Isabel Pretto, 43 anos, de Rio Preto.

Os problemas com a filha, 17, ocorreram há seis anos, em dois colégios particulares de São Paulo. “A situação saiu do controle. Uma das comunidades no Orkut se chamava ‘O que vamos fazer com a (nome da filha)?’, e era ilustrada por uma foto dela em sala de aula, com um homem armado com uma faca atrás, pronto para golpeá-la”, diz Isabel. A menina, então com 11 anos, passou a ter crises de choro durante as aulas.

A administradora defende a criação de leis que responsabilizem os pais dos autores e a escola em casos de cyberbullying. “É um assunto muito sério, que pode transformar a vida de um adolescente. O que fizeram com a minha filha foi terrorismo, e eu não pude contar com a ajuda de ninguém.”

Prevenção

Para psicopedagoga Andréa Della Corte Barros, o monitoramento pelos pais do que a criança ou o adolescente acessam na internet é a melhor forma de evitar o cyberbullying. “A internet pode ser muito útil para o desenvolvimento deles, mas, se não controlada, pode se tornar um grande problema, uma arma para ameaçar outros colegas”, afirma.

Observando o comportamento dos filhos na frente do computador, os pais podem identificar se eles praticam ou são vítimas de cyberbullying, de acordo com a pesquisadora Cléo Fante. “As vítimas, geralmente, passam a evitar o uso do computador e apresentam queixas para faltar às aulas. Além disso, demonstram preocupação, nervosismo e ansiedade”, diz.

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