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Conjuntura
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Copom mantém a Selic em 10,75% ao ano
 
  Guilherme Baffi
 
  Franzotti: “A inflação está se mantendo estabilizada e os indicadores de produção estão otimistas”

A um mês das eleições presidenciais, o Banco Central interrompeu o ciclo de alta do juro básico da economia que elevou a Selic entre abril e julho. Em decisão unânime, a taxa foi mantida em 10,75% anuais, sem viés. A estabilidade da taxa básica era esperada pelo mercado, mas analistas alertam que a inflação pode não ter desacelerado o suficiente. Por isso, entre economistas, prevalece o entendimento de que o novo presidente da República precisará elevar o juro em 2011 para impedir o descontrole de preços no fim do próximo ano.

No comunicado distribuído após a decisão, o BC afirma que “não espera que o nível de inflação registrado nos últimos meses se mantenha em um futuro próximo”. Ao mesmo tempo, os diretores da instituição afirmam que há “continuação do processo de redução de riscos para o cenário inflacionário que se configura desde sua penúltima reunião”.

Diante desse quadro, o Comitê de Política Monetária (Copom) entendeu que, neste momento, a manutenção da Selic no “nível estabelecido em sua reunião de julho proporciona condições adequadas para assegurar a convergência da inflação para a trajetória de metas”.

  Guilherme Baffi
 
  Bellodi: “O governo fica refém e precisa ser mais conservador na política monetária”

Interrupção

Com a decisão, o mais recente esforço do BC para conter os preços durou apenas três reuniões: abril, junho e julho, o mais curto ciclo de aperto monetário do governo Lula. Na época, a alta havia sido motivada pela inflação que, com o crescimento da economia, passou a andar em ritmo mais rápido e poderia comprometer o cumprimento da meta de inflação.

Dessa vez, é a mesma inflação que motiva o fim dos aumentos da Selic. No Copom, um dos principais argumentos para a decisão de ontem é o comportamento dos preços. No mês de abril, quando o juro começou a avançar, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia subido 0,57%. Em junho, o índice caiu para zero e ficou praticamente estacionado, com leve alta de 0,01% já no mês de julho.

Repercussões regionais

O economista Hipólito Martins Filho disse ontem que, se a decisão tomada ontem fosse pela alta da Selic, comprometeria o crescimento econômico do País no próximo ano e que um movimento de queda nos juros básicos depende do desempenho da economia dos Estados Unidos, principalmente no terceiro trimestre deste ano. “A produção industrial está aquecida, está havendo desaquecimento da economia mundial e sobrando produto no mercado interno”, comentou o economista. “Além disso, temos registrado deflação por meses seguidos.”

O diretor regional do Centro das indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Rio Preto, José Luiz Franzotti, também concorda com o tom adotado pelo Copom. “A inflação está se mantendo estabilizada e os indicadores de produção estão otimistas”, afirmou. Para ele, uma elevação da taxa inibiria investidores, que estão motivados pelo bom momento pelo qual passa a economia. “O mínimo que o Copom poderia fazer era manter a taxa como estava”, disse Franzotti.

Para o presidente da Associação Comercial e Industrial de Rio Preto (Acirp), Mauricio Bellodi, o governo já poderia ter começado uma trajetória de redução da taxa por duas razões. “A tendência de arrefecimento da inflação e da velocidade de crescimento da economia já se fez notar nos últimos dois meses, o que permitiria o início da redução dos juros”, comentou o presidente da Acirp. Mas, segundo Bellodi, isso não acontece em função dos gatos públicos, que estão em níveis altos. “Assim, o governo fica refém e precisa ser mais conservador na política monetária.”

Decisão considera a evolução do IPCA

A desaceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) reforçou o entendimento de que não era mais necessário subir o juro. Tanto que no fim de julho o Banco Central já havia trocado o adjetivo para avaliar o comportamento dos preços. Se os aumentos do início do ano eram classificados como resultado do “aquecimento” da economia, o tom arrefeceu e a palavra mais usada passou a ser “acomodação”.

Além disso, há clara percepção do BC de que os Estados Unidos, Europa e Japão terão recuperação bem mais devagar que a prevista inicialmente. Por isso, essa influência externa tem um caráter “desinflacionário” ou até “deflacionário” para o Brasil. Ou seja, a crise no exterior ajuda a conter os preços no País - seja por bens importados ou preços internacionais como as commodities.

Mas há sinais que apontam o contrário. Na inflação, os preços ao atacado voltaram a subir. Enquanto junho teve alta de 1,09% no segmento, o ritmo das remarcações cresceu no mês passado para 1,24%. Outro sinal vem da indústria, onde a produção voltou a crescer após três meses seguidos de queda. Em julho, o setor teve expansão de 8,3% em 12 meses, praticamente o dobro do verificado em maio (4,5%).

“Salários em alta, desemprego na mínima histórica e crédito em expansão. Tudo isso dá sinais de que economia vai voltar a crescer de forma robusta já no fim de 2010 e também em 2011. Por isso, acreditamos que o BC precisará elevar a Selic no próximo ano em 1 ponto percentual”, diz o economista-sênior do Banco Espírito Santo, Flavio Serrano. O foco do economista está nas estimativas para a inflação de 2011 que já sobem há duas semanas seguidas e estão em 4,87%, se afastando do centro da meta de inflação para o ano, de 4,50%.

Fiesp critica

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) criticou a decisão de manter a taxa básica de juros em 10,75%. Em nota, o presidente em exercício da entidade, Benjamin Steinbruch, afirma que o Copom errou ao elevar a Selic no início deste ano, uma vez que a inflação era pontual e localizada em um único gênero - alimentos. “Mais uma vez errou o Copom no seu diagnóstico”, diz a nota. “A próxima ata do Copom, por justiça, deveria começar com a frase: ‘Desculpem, mas erramos’.”

Para Fecomercio, medida está atrasada

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) criticou ontem a decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 10,75% ao ano. Para a entidade, a manutenção da taxa básica dos juros indica que o BC errou antes e deveria agora, na reunião de outubro, avaliar uma retomada dos cortes dos juros.

“A decisão do Copom, uma espécie de ‘parada técnica’, deveria ter sido tomada há quatro meses, comprovando que os aumentos de juros foram completamente equivocados”, diz nota divulgada à imprensa. “Na prática, teria sido muito mais adequado não ter promovido aumento da Selic no início do ano. Desde então, o País está gastando uma fábula com juros enquanto a inflação não se move há mais de quatro meses”, afirma o presidente da Fecomercio, Abram Szajman, na nota.

CNI

O presidente em exercício da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, espera que o Banco Central retome os cortes na Selic a partir da próxima reunião do Copom. “A manutenção dos juros em 10,75% ao ano frustrou as nossas expectativas. Esperávamos que o ciclo de redução dos juros começasse na reunião que terminou há pouco”, destacou Andrade em nota.

Suas previsões se baseiam na mudança de cenário registrada nos últimos meses. “A inflação e a atividade econômica perderam ritmo, abrindo espaço para a revisão do aperto monetário”. Segundo Andrade, com a desaceleração dos preços dos alimentos em junho e julho, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve manter-se dentro da meta fixada pelo Banco Central para este ano.

FGV

Para o chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas, Samuel de Abreu Pessoa, “faz todo o sentido” a manutenção da taxa de juros básica Selic em 10,75% ao ano. Na avaliação do economista da FGV, o cenário estava muito indefinido, o que justificou manter a taxa no atual patamar. Pessoa observou, olhando o período antes da crise, que “é uma taxa ainda baixa para estabilizar a inflação”.

 
 
 





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