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Burca? Nem pensar
Mirna de Lima Soares
A forma como aprendi a encarar a vida jamais seria aceita do outro lado do mundo. No Afeganistão, mulheres como eu - e, claro, milhões de brasileiras - já teriam sido apedrejadas em praça pública. O básico do básico que minha mãe me ensinou, que é ter uma profissão, é inadmissível por lá. Pelo menos, é o que mostram "O livreiro de Cabul", da jornalista norueguesa Asne Seierstad, e "O caçador de pipas", do afegão Khaled Hosseini. Livros que retratam momentos diferentes daquele país, escritos por pessoas com visões de mundo completamente distintas, as duas obras acabam revelando de maneira dolorida, às vezes, a realidade feminina por lá. No primeiro, o cotidiano das mulheres descrito é impressionante. São extremamente submissas. Aceitam o marido que escolhem para elas. Estudam, se deixarem. Não têm opinião. Suas vidas se restringem a atender aos homens da família. Mulheres separadas praticamente não existem por lá. Quando acontece, voltam a morar na casa dos pais ou do irmão mais velho. O desprezo com que são tratadas é tamanho que até nas piadas isso fica patente. No romance de Hosseini, por exemplo, um personagem conta que o mulá Nasruddin, ao descobrir que sua filha apanhava do marido, deu-lhe outra surra e mandou-a levar o seguinte recado a ele: "Diga que não sou idiota. Se o cretino acha que pode bater em minha filha, eu me vingo batendo em sua mulher". Essas situações foram reforçadas no pós-Taleban. Esse é o Afeganistão que não vemos. Nas manchetes, está o país de Osama bin Laden, aquele do ataque de 11 de setembro. Mas o Afeganistão pós-Taleban é mais cruel com suas mulheres.
Não se pode negar que em algum tempo houve um progresso, triturado primeiro pelos russos e, depois, aniquilado pelos talebans. Era uma época em que as mulheres usavam saias. Estudavam. Ocupavam cargos importantes no governo. Participavam das decisões. Mostravam seus rostos. Agora, andam à espreita. Só saem de casa se um homem - pode até ser criança - as acompanhar. Tudo tem mais valor que suas opiniões. Suas opiniões, aliás, só são aceitas quando são para falar aos homens da mulher com que querem se casar. No Afeganistão, um homem não pode pedir uma mulher em casamento. É uma de suas familiares quem vai até a pretendida ver seus modos, suas feições, se é digna do pretendente e então ela mesma faz o pedido de casamento para a família da moça. Absurdo! Será? O que muda no Brasil que a gente desconhece? Até onde se sabe, lá para o Norte/Nordeste as mulheres também não têm direito a muita coisa. Às vezes, até são dadas em troca de comida. Duas, três até dividem o mesmo homem, sob o mesmo teto. Sobre o analfabetismo, não é preciso falar. Ainda trabalham feito burro de carga e sabe lá Deus o que é direito à opinião. Isso sem falar que adultério é resolvido na peixeira. As mais de 700 páginas que li revelam outros aspectos da cultura e do mundo afegão. O que retrato aqui é apenas um ângulo que extraí das duas obras. A leitura desses livros levou-me a refletir sobre o quão distante vivemos da realidade cotidiana. Focamos nos nossos problemas e sequer imaginamos o que rola por aí. Essa viagem literária me fez olhar para outra cultura com uma curiosidade tremenda. Há muito tempo não lia tão bons livros. Agora, espero pela chegada no Brasil de "Eu sou o livreiro de Cabul", escrito pelo personagem real, retratado pela jornalista Asne Seierstad. Shah Muhammad Rais quer rebater alguns relatos feitos por ela, que ele diz não serem verídicos. Com a palavra, o livreiro.
MIRNA DE LIMA SOARES Jornalista em Rio Preto
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